segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Psicanálise e Modernidade. Cláudia Henschel de LIma

Quarenta e cinco anos nos separam do marco da teorização do objeto a no ensino de Lacan: o seminário sobre a angústia - ponto de partida para a separação entre o real e o significante, para a pluralização dos objetos a e sua localização na anatomia de um corpo irredutível ao formalismo. Entre este seminário, com suas referências naturalizantes, e o seminário O Avesso da Psicanálise recoberto pelas luvas de Marx, um avanço importante ocorre em seu ensino: trata-se do movimento de transportar o objeto a - até então pluralizado nos diversos pedaços do corpo - para a atualidade histórica através dos quatro discursos. Entre os anos de 1964 e 1969, localizamos no seminário sobre Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise - onde o objeto a é a presença de um vazio que pode ser ocupado por qualquer objeto, sem hierarquia de valor - e em De um Outro a outro, onde avança sobre a homologia entre mais-valia marxista e mais gozar, as bases desta alavancagem conceitual, que será apresentada em O Avesso da Psicanálise. De fato, o seminário 17 representa o momento em que o objeto a pluralizado na anatomia do corpo é transportado para o campo do discurso, ganhando o estatuto de função lógica e convertendo-se em único. Em uma das lições de Um Esforço de Poesia, Miller nos oferece uma imagem singular e difícil dessa alavancagem teórica ao relatar a objeção feita por Althusser à teorização do grande Outro, no sentido de que esta perpetuaria a metafísica: a teorização do grande Outro seria, ainda, uma teorização sobre Deus. Diante desta declaração, Lacan avançaria, progressivamente, na direção de uma teoria sobre o saber fazer com o gozo – inicialmente localizada na perspectiva aberta pelos quatro discursos, sobre o destino assumido pelo gozo em cada giro discursivo que fundamenta a atualidade histórica.
O seminário 17 manifesta esse trabalho conceitual de um Lacan que conjuga a teoria marxista da mais-valia com o aforisma nietszcheano da morte de Deus – só para localizar o giro discursivo que lança o objeto a para o zênite de nossa civilização. Ele explora a risada irônica do capitalista que, em sua defesa dos novos tempos, da nova experiência biológica e social que se instaura entre o corpo e a máquina, entre o gozo e o significante (não mais entre o corpo e a terra), encarna o momento em que ocorre o giro discursivo no discurso do mestre, onde o objeto a contábil ocupará a posição de agente. E a verdade – antes garantida por Deus, ou pelo Outro -, cede seu lugar para o retorno severo do gozo. Sobre as conseqüências dessa ascensão do objeto a é possível afirmar, então, que nos encontramo em uma época em que o avanço do saber científico colonizou a ilha deserta do inconsciente e da sexualidade, convertendo-os nas categorias quantitativas de redes neurais, inconsciente cognitivo e impulso. Todavia, ao contrapormos a direção da pesquisa com roedores, com o conjunto dos autores que discutiram os novos sintomas na Conversação de Arcachon e na Convenção de Antibes , testemunhamos não um apelo panfletário em nome da psicanálise, mas o tratamento rigoroso dos problemas que a época impõe à clínica, isolando o quadro sintomático atual: os desligamentos da pulsão em relação ao Outro, a pregnância do eixo imaginário, a presença maciça do pai da realidade, a falência do sentimento da vida, a experiência de fuga do corpo. Problemas que são referentes ao limite conceitual da lógica do significante e que impõem a mudança de eixo da pesquisa em psicanálise no sentido de sustentar não só a importância da teoria lacaniana do gozo, como também de indicar a fratura no eixo simbólico típica de nossa época. É neste sentido que a produção de pesquisas com roedores aliada à vertente mais higienista da redução de danos corre o risco de ser, ela mesma, um sintoma de época na medida em que apresenta todas as implicações imanentes à civilização do objeto a: a relevância da causalidade quantitativa biopsicossocial, a foraclusão do sujeito em nome da correlação entre processos psíquicos e atividade neural, o elogio do avanço tecnológico do imageamento cerebral que permite verificar tal correlação, e enfim, o esclarecimento da condução clínica por meio da metodologia experimental. Da mesma forma que se atribui à psicanálise uma quota de responsabilidade pelo descentramento do homem em relação a si mesmo e pelo desvelamento do mais-gozar - devido a sua própria difusão -, é possível atribuir à mesma um papel fundamental no levantamento das conseqüências da ascensão do objeto a em nossa civilização. Assim, não se encontra nessa modalidade de pesquisa uma denominação mais formal, mais reduzida de adjetivos do que a denominação lacaniana para o sujeito na civilização do objeto a: a debilidade mental que nos assola hoje é a ponta deste iceberg maior que é o limite do pensamento frente ao gozo (Lacan, 1969; Miller, 1997; Miller, 2001-2002). É essa debilidade mental que encontramos nas adicções, nessa fixação desmedida do gozo em uma substância, correlata à fratura do simbólico, ou ao que Lacan (1975) denominou como sendo a ruptura do matrimônio com o pequeno pipi.
Em nome da presença desse eixo formulado por Lacan para o tratamento das adicções, é possível localizar, para cada caso, o estatuto do recurso à droga e elaborar uma hipótese diagnóstica que, no lugar da bússola cientificista da modificação sináptica dos centros de recompensa localizados no cérebro, possibilite a direção do tratamento. Conceder relevância à experiência do gozo não é uma questão de procedimento, de tomada de decisão entre ser um especialista na correlação entre sinapse e transtorno, por exemplo, ou ser especialista em psicanálise. Trata-se de uma questão clínica, que depende fundamentalmente da ação do psicanalista na cidade: é, de fato, o analista que - desperto do entorpecimento classificatório de redução do recurso a droga a uma alteração sináptica produzida pelo consumo excessivo do objeto – torna possível a colocação de uma pergunta relativa ao lugar da droga no encontro de cada falante com o real. Trata-se, ainda, de uma questão ética de resistência à assepsia do mundo, de resistência à sua conversão em universo do entretenimento, em labirinto para ratos, com suas rodas gigantes e alavancas com pedaços de queijo.
3. A poesia lírica na civilização atual
A cidade de Baudelaire, certamente, não se perpetua mais na nossa cidade. Todavia, vale lembrar de sua Paris do século XIX, no momento em que Miller (2006) ressalta a face segregativa, concentracionista, do entretenimento:

“Não importa o partido a que se pertença (...) é impossível não ficar emocionado com o espetáculo dessa multidão doentia, que traga a poeira das fábricas, inspira partículas de algodão, que se deixa penetrar pelo alvaiade, pelo mercúrio e todos os venenos usados na fabricação de obras-primas... Essa multidão se consome pelas maravilhas, as quais não obstante, a Terra lhe deve. Sente borbulhar em suas veias um sangue púrpura e lança um olhar demorado e carregado de tristeza à luz do Sol e às sombras dos grandes parques. “
Ao final de sua descrição, Baudelaire escreve: modernidade

Ethos moderno em Baudelaire. Cláudia Henschel de Lima

(Trecho do artigo sobre psicanálise e literatura na modernidade ainda no prelo).

Um dos traços mais marcantes do século XX foi a elaboração de uma concepção crítica a respeito da contemporaneidade. Cito como exemplo, o pensamento de Martin Heidegger, Hanna Arendt, Michel Foucault e, na psicanálise, de Jacques-Alain Miller.
São pensadores que, no campo filosófico e analítico, abordam a contemporaneidade problematizando sobre a atualidade e o posicionamento assumido pelo intelectual diante das transformações dos saberes e das relações de poder.
No caso específico de Michel Foucault, é importante ressaltar o que ele próprio denominara de ontologia do presente, extensamente analisado em “O que são as Luzes?”.
Nesse artigo, Foucault elabora uma definição precisa da ontologia do presente. Trata-se de conduzir uma “genealogia, não tanto da modernidade, mas da modernidade como questão”, ou seja, é tornar a modernidade um enigma para o pensamento filosófico. Dessa forma, a ontologia do presente se delineia no momento preciso em que se valoriza o posicionamento subjetivo do intelectual frente a época, contrapondo-se a periodizações lineares do tipo modernidade-pós-modernidade.
Com o objetivo de consolidar a ontologia do presente, Foucault recorrerá à resposta de Kant à questão “O que são as Luzes?”, proposto por... e à poesia de Charles Baudelaire.
O posicionamento de Kant, nesta resposta interessa à Foucault na medida em que, ao sustentar a tarefa do filósofo pela máxima sapere aude – tenha a coragem, a audácia de saber - evidencia a relevância do posicionamento ético assumido pelo filósofo na modernidade, para além de uma interrogação referente a cientificidade da ciência típica da analítica da verdade. Mas, para além, também, de uma determinação da modernidade a partir de um calendário de fatos históricos fixos e lineares. Trata-se, aqui, de valorizar a aparição tipicamente moderna de um ethos, de um posicionamento que um filósofo pode individualmente assumir frente ao tempo. No entanto, no processo de consolidação do posicionamento do filósofo, Foucault vai além de Kant. Ele cita a poesia de Baudelaire nessa vertente da ética e do tempo, como expressão de uma das consciências mais críticas da modernidade do século XIX. De fato, a poesia de Baudelaire se refere diretamente à modernidade a partir da experiência subjetiva de uma descontinuidade no tempo - ruptura da tradição, sentimento de novidade, vertigem do tempo que passa – e do modo como o poeta emprega as alegorias da morte, da destruição e degeneração para retratar o objeto central de sua poesia lírica: a cidade de Paris no século XIX.
O posicionamento de Baudelaire não significa uma aceitação incondicional das características de uma época. Significa, antes, assumir uma determinada atitude em relação a esse movimento, mostrando o ponto de impossível existente nela. Tomemos a situação do pintor e do poeta moderno, exposta por Baudelaire no Salão de 1859. O poeta encontra pela rua, os traços que compõem um modo de ser da época e, a partir desse encontro, conduzem uma crítica precisa à esses traços. Tal crítica aparece, por exemplo, na predominância do preto e do cinza no vestuário masculino a partir da Monarquia de Junho. Sobre esse ponto, Benjamin (1985) destaca a seguinte passagem do texto de Baudelaire:
“Entre todos, será chamado de O Pintor aquele que conseguir decantar o lado épico da vida presente e nos ensinar, com linhas e cores, a entender como somos grandes e poéticos em nossos sapatos de verniz e em nossas gravatas. Esperemos que os autênticos pioneiros nos dêem, no próximo ano, o especial prazer de podermos festejar o surgimento de algo realmente Novo”.
Essa dimensão da ontologia do presente parece se realizar, em Baudelaire, no momento em que ele faz da cidade a matéria para compor sua poesia e, principalmente, para erguer através do pintor e do poeta, uma nova atitude para as artes. De fasto, no trecho acima citado, testemunha-se um Baudelaire que espera por um futuro em que o pintor, o verdadeiro pintor saberá arrancar à vida atual a sua componente épica e ambiciona que possam os verdadeiros pesquisadores nos oferecer no próximo ano a alegria singular de celebrar o surgimento do novo!
Nesse movimento de composição da poesia lírica a partir das transformações abruptas da cidade, o personagem do flâneur se destaca. Ele se posiciona com estranhamento diante do favorecimento do capital financeiro e da reestruturação do espaço arquitetônico com a construção dos boulevards. Assim, a especulação da Bolsa e as longas avenidas passam a ocupar, no século XIX, o lugar dos jogos de azar, típicos da sociedade feudal, jogados nas ruas estreitas de uma Paris antiga. O personagem do flâneur retrata precisamente essa transformação no tempo – pela ascensão do mercado de consumo e da quantificação do trabalho - e no espaço, pela arquitetura das avenidas largas: é uma Paris estranha ao parisiense.
Outro momento é o poema “O Cisne”, onde Baudelaire retrata o exílio no interior desta cidade, reconstruída a partir de projeto de reurbanização do Barão Haussmann que, por sua vez, se preocupava com a proliferação das barricadas. Seu projeto arquitetônico incluiu a expansão da largura das avenidas, bem como a abertura de novas avenidas para diminuir o trajeto entre as casernas e os bairros operários. Assim, obedecendo ao eufemismo do embelezamento estratégico, o projeto de Haussmann impôs a desaparição de bairros inteiros; antigos pardieiros cederam lugar à praças amplas, jardins e alamedas, segundo um processo abrupto de modernização que culminaria em uma reformulação radical e completa da cidade. O poema “O Cisne” retrata com precisão este momento.

I
Andrômaca, eu penso em você! Esse pequeno rio,
Pobre e triste espelho onde outrora resplendia
A imensa majestade de suas dores de viúva,
Esse Simeonte mentiroso que aumenta com teu pranto,
Fecundou subitamente minha memória fértil,
Quando eu atravessava o novo Carrossel.
A velha Paris não existe mais (a forma de uma cidade
Muda mais rápido, ah! que o coração de um mortal);
Só em espírito vejo todo esse campo de barracos,
Essas pilhas de capitéis esboçados e de cornijas,
Os gramados, os grandes blocos esverdeados pela água das poças,
E, brilhando no ladrilho, a confusão de quinquilharias.
Lá era exposta outrora uma feira de animais;
Lá eu vi, numa manhã, quando sob o céu
Frio e claro o Trabalho acorda, onde a sujeira
Impele um furacão sombrio no ar silencioso,
Um cisne que escapara de sua jaula,
E, esfregando seus pés espalmados sobre o pavimento seco,
Sob o sol áspero arrastava sua plumagem branca.
Junto a regato sem água, o animal abrindo o bico
Banhava nervosamente suas asas na poeira,
E dizia, com o coração cheio de seu belo lago natal:
"Água, quando cairás? quando soarás, raio?"
Eu vejo esse infeliz, mito estranho e fatal,
Em direção ao céu às vezes, como o homem de Ovídio,
Em direção ao céu irônico e cruelmente belo,
Sobre seu pescoço convulsivo esticando seu rosto ávido,
Como se lançasse uma censura a Deus!
(BAUDELAIRE, 1976a, p. 85-86).