quarta-feira, 26 de agosto de 2009

ADOLESCÊNCIA E USO DE DROGAS

Quando falamos em uso de drogas, normalmente associamos ao uso das drogas ilícitas, por exemplo, a maconha e a cocaína. Essa associação se deve ao próprio índice de consumo elevado dessas substâncias. Em 2007, a maconha ocupava o primeiro lugar e a cocaína o quarto lugar, no índice de consumo de substâncias pelos brasileiros.
No entanto, ocupando o segundo e terceiro lugares, encontramos substâncias que podem estar guardadas em um armário ou gaveta de qualquer brasileiro: a acetona e remédios para dormir.
Será que isso quer dizer que o simples fatos de termos tais substâncias em casa, é um motivo suficiente para que um filho as consuma e se torne dependente?Aqui, entra nossa consideração sobre a adolescência.
Não raras vezes, usamos um nome para nos referirmos à essa etapa da vida pela qual todos nós passamos: aborrescência. Com essa palavra, damos nome à esse momento da vida, que mais parece uma crise, onde o adolescente questiona as regras sociais, se comporta com rebeldia frente aos valores transmitidos pelos pais e reivindica pela independência da vida adulta. Muitos pais diante da reivindicação e da rebeldia dos filhos adolescentes, ou cedem completamente ou estabelecem um verdadeiro cabo de guerra com seus filhos. O resultado final para ambas as posições na relação ente pais e filhos é normalmente o desconhecimento do que se passa na esfera íntima da vida de seus filhos. A palavra “aborrescente” acaba por expressar esse desconhecimento, porque se por um lado a adolescência traz a reivindicação e a rebeldia, por outro não raras vezes, nos deparamos com adolescentes que experimentam um dos sentimentos mais preocupantes para nós que trabalhamos com a clínica: a tristeza.
O que acontece no momento em que um sujeito ingressa na adolescência?
A OPS/OMS define a adolescência como um processo no qual se acelera o desenvolvimento cognitivo e a estruturação da personalidade, abrangendo as idades de 10 a 19 anos e divididas em pré-adolescência (10 a 14 anos) e adolescência (15 a 19 anos). Esse longo processo se localiza entre o tempo infantil e a vida adulta e se caracteriza pela transformação puberal, pela maturação dos caracteres sexuais secundários (pelos, crescimento dos seios em meninas, modificação da voz em meninos, etc). Essa maturação modifica a imagem do corpo. E essa modificação não é fácil de ser assimilada. O que chamamos de crise da adolescência se refere, na verdade, à esse momento de reestrutração da personalidade, da vida subjetiva e que vai desde a imagem do corpo até o fato de assumir uma identidade sexual e de fazer uma escolha amorosa de objeto. É o momento em que o que acontecia, até então, somente na fantasia infantil e que se expressava pelas brincadeiras ou cenários de jogos infantis, deve passar a fazer parte da dinâmica adulta de dar pedir, ter e não ter. Vemos que é um momento muito difícil para o ser humano porque o conjunto da fantasia da infância se transforma em identidade sexual e possibilidade de escolha de um parceiro no jogo do amor. Ser rebelde com os pais, questionar regras sociais ou reivindicar independência podem estar associados à tentativas saudáveis do adolescente de inventar um modo de assumir o que há de mais íntimo e delicado na experiência subjetiva de cada ser humano: sua identidade sexual e a defesa de sua escolha amorosa. Rebeldia e reivindicação é o nome que damos ao trabalho adolescente de inventar um modo de fazer valer sua imagem corporal, e sua posição frente ao semelhante, nas relações sociais. Quando fazemos um cabo de guerra com os filhos nesse terreno, acabamos por não ouvir e acolher essas invenções. Mas existem jovens que não têm os instrumentos subjetivos para essa invenção. Então, prolongam a infância ou se bloqueiam diante da primeira aparição de uma atração amorosa. Acabam por se tornar silenciosos, arredios e pouco dispostos ao relacionamento social. Na vida íntima, vivem um sentimento de tristeza, inferioridade ou se sentem diferentes de todos os que os rodeiam. Quando fazemos um cabo de guerra com os filhos nesse terreno cobrando, por exemplo, uma identidade heterossexual, acabamos por nos cegar para a gravidade deste afeto de tristeza que contribui para tornar esse adolescente cada vez mais solitário e sem perspectiva na relação social. A palavra “aborrescente” deve desaparecer de nosso vocabulário com o adolescente. Ela em não oferece instrumentos subjetivos para aquele que não os têm – ao contrário reforça mais e mais seu silêncio, sua tristeza, seu sentimento de inferioridade. Devemos dedicar uma preocupação especial com esses casos: pode ser a ocasião para recorrer à droga como tentativa de anestesiar esse sentimento de tristeza, de tornar o adolescente mais desinibido socialmente e de permitir sua inserção em um grupo social. A droga é um objeto produzido por nossa civilização e que pode estar disponível para qualquer ser humano, na medida em que não se restringe às drogas ilícitas. O recurso às drogas, nesse momento delicado da adolescência, deve ser considerado como o recurso à uma prótese para o adolescente que não possui instrumentos subjetivos para inventar um lugar na relação com o próximo. Aqui, não basta tornar difícil o acesso à medicamentos lícitos que guardamos em um armário ou gaveta. É preciso abrir mão das palavras ofensivas ou expressões de indiferença (“aborrescente”, “isso passa”), suspender por alguns minutos por dia a correria rotineira e disponibilizar-se à uma conversa ou à um abraço, compartilhando com ele esse momento tão delicado da vida de todo ser humano.

Cláudia Henschel de Lima

Consumo de Substâncias Psicoativas no Brasil.

A prevalência do consumo de substâncias psicoativas lícitas, foi recentemente evidenciada tanto por meio dos dados sobre o consumo nacional de substâncias psicoativas dos anos de 2005-2007 - obtidos através da parceria entre a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) e o CEBRID – como pelos dois últimos relatórios, publicados pelo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes (UNODC), em 9 de setembro de 2008 e em junho de 2009..
A reprodução da tabela do CEBRID sobre o consumo de substâncias psicoativas no Brasil (Tabela 1), permite constatar que as drogas lícitas – como é o caso dos benzodiazepínicos e orexígenos – são as mais consumidas no Brasil, ultrapassando o consumo de cocaína, por exemplo, que é o principal alvo da luta antidrogas dos países latino-americanos. A evolução do consumo nas drogas lícitas é confirmada, ainda, pelos dados relativos a produção e consumo de anfetaminas e metanfetaminas, presentes no relatório do UNODC de 2008 e 2009.
Evidencia-se que a prescrição de anfetaminas, na América Latina, supera a média mundial. Nos períodos de 2000 a 2002 e 2004 a 2006, o consumo de estimulantes na América Latina, fabricados legalmente, passou de 7 doses diárias por 1.000 habitantes, para 11 doses diárias (um aumento de 5% no consumo). No caso específico do Brasil, o país é o terceiro maior usuário do mundo, com mais que o dobro de usuários entre 2001 e 2005, saltando de 1.5% para 3.2% nas áreas urbanas. O relatório de 2008, por exemplo, registrou um índice de consumo, para o Brasil, de 10 doses diárias. Já no relatório de 2009, é acentuada a facilidade das prescrições médicas irregulares de anfetaminas.
O conjunto desses dados revela, então, não só o aumento do consumo de cocaína. Mas principalmente a expansão surpreendente do consumo de drogas lícitas (ansiolíticos, orexígenos e estimulantes) para além da linha de consumo terapeuticamente controlada. Um outro fato relevante sobre o consumo de substâncias psicoativas lícitas é o índice de consumo elevado de fluoxetina (LY110141), cujo nome comercial é LY110141.
Sua comercialização começou em 1987 nos Estados Unidos. No Brasil, a substância foi comercializada a partir de 1989. Em 1999, sua comercialização equivalia a 25% do faturamento de 10 bilhões de dólares do laboratório Eli Lilly. Em 2001, mais de 20 milhões de medicamentos antidepressivos eram comercializados no Brasil: 200 mil eram de Prozac. O uso do Prozac responde a tese do desequilíbrio químico e atua sobre os níveis de serotonina que, junto com a dopamina e a noradrenalina são isoladas como as reguladoras das emoções. Sendo assim, o Prozac é classificado como ISRS (inibidor seletivo de reabsorção de serotonina). Entre 1995 e 1999, o laboratório Ely Lilly estende a possibilidade de uso da fluoxetina à criança, desenvolvendo o Prozac líquido com sabor de hortelã. O uso de drogas semelhantes ao Prozac por crianças entre 7 e 12 anos, nos Estados Unidos, aumentou 151% e entre menores de 6 anos 580%. Em 2004, as crianças de 5 anos ou menos, foi o segmento de maior consumo de antidepressivo nos Estados Unidos para o tratamento do mutismo seletivo, caracterizado pelo medo de falar em situações sociais[1].

[1] Dados obtidos em Felicidade na Dose Certa?, in Carta Capital. 23 de maio de 2007. Ano XIII. N.445. pp.8-14.
Um outro fato relevante sobre o consumo de substâncias psicoativas lícitas é o índice de consumo elevado de fluoxetina (LY110141), cujo nome comercial é LY110141.
Sua comercialização começou em 1987 nos Estados Unidos. No Brasil, a substância foi comercializada a partir de 1989. Em 1999, sua comercialização equivalia a 25% do faturamento de 10 bilhões de dólares do laboratório Eli Lilly. Em 2001, mais de 20 milhões de medicamentos antidepressivos eram comercializados no Brasil: 200 mil eram de Prozac. O uso do Prozac responde a tese do desequilíbrio químico e atua sobre os níveis de serotonina que, junto com a dopamina e a noradrenalina são isoladas como as reguladoras das emoções. Sendo assim, o Prozac é classificado como ISRS (inibidor seletivo de reabsorção de serotonina). Entre 1995 e 1999, o laboratório Ely Lilly estende a possibilidade de uso da fluoxetina à criança, desenvolvendo o Prozac líquido com sabor de hortelã. O uso de drogas semelhantes ao Prozac por crianças entre 7 e 12 anos, nos Estados Unidos, aumentou 151% e entre menores de 6 anos 580%. Em 2004, as crianças de 5 anos ou menos, foi o segmento de maior consumo de antidepressivo nos Estados Unidos para o tratamento do mutismo seletivo, caracterizado pelo medo de falar em situações sociais[1].

[1] Dados obtidos em Felicidade na Dose Certa?, in Carta Capital. 23 de maio de 2007. Ano XIII. N.445. pp.8-14.

Cláudia Henschel de Lima