segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

FREUD, A CIÊNCIA E A TOXICOMANIA

FREUD, A CIÊNCIA E A TOXICOMANIA
Claudia Henschel de Lima

1. FREUD E A CIÊNCIA
O desenvolvimento da problemática da toxicomania, no interior da psicanálise é indissociável da colocação do problema acerca do status da psicanálise (como teoria e clínica) em nossos dias, em que a ciência está submetida ao regime capitalista.
Dois elementos definem a direção dada a investigação da toxicomania. São eles:
· A evolução dos conceitos em Freud está articulada a concepção do que vem a ser uma ciência.
· Isso será evidenciado pela descrição do modelo fisiológico empregado por Freud para explicar os efeitos da cocaína sobre o corpo. O fato da ciência funcionar como o ideal que orientará o entendimento sobre a cocaína, impõe o distanciamento entre os argumentos de Freud e os da psiquiatria clássica.

2. A ORIGEM DA CATEGORIA DE TOXICOMANIA

· Loucura Clássica.

A consideração a respeito da loucura na época clássica está intimamente articulada ao cogito cartesiano. A loucura está fora do cogito, reservada a mudez, destituída de linguagem própria. Apesar de vários textos do século XVII abordarem a loucura, ela é citada à título de exemplo - ou de uma espécie médica ou, na condição negativa de erro, como prova ao contrário do que seja a razão.


· Da loucura como impossibilidade de pensar à categoria de monomania

O texto de Michel Foucault História da Loucura na Época Clássica, No século XIX, isola para nós os seguintes enunciados a respeito do status que a loucura assume ao longo do século XIX. Nesse livro, Foucault mostra como há uma transformação no status da loucura entre o século XVII e o século XIX. Ela deixa de ser a impossibilidade de pensar, ou seja, deixa de ser o produto de uma alteração da inteligência, para ser o produto de uma alteração que ocorre no âmbito da vontade. Essa transformação explica o surgimento da categoria de monomania para explicar o universo da loucura e das ações mórbidas.

1. O louco desvenda a verdade elementar do homem: seus desejos primitivos, as determinações do corpo. Até onde uma paixão, a vida em sociedade, pode levar o homem. Tudo aquilo que o afasta de uma natureza primitiva que não conhece a loucura. Está sempre ligada a civilização e ao mal-estar.

2. A loucura mostra a interrupção da liberdade humana, o mergulho no determinismo do corpo. Nela, triunfa o orgânico, a única verdade do homem que pode ser objetivada e observada cientificamente. Mas a loucura se distingue das outras doenças orgânicas porque evidencia o mundo dos instintos, da perversidade, do sofrimento, da violência que normalmente está adormecido. A loucura evidencia uma profundidade que dá todo seu sentido à liberdade humana: essa profundidade é a maldade em estado puro.

3. A inocência do louco é garantida pela intensidade e força desse conteúdo psicológico, que é a maldade. Acorrentado pela força de suas paixões, arrebatado pela vivacidade dos desejos e imagens, o louco é o irresponsável. Sua irresponsabilidade é, então, objeto de observação médica, na medida em que resulta de um determinismo objetivo. A loucura de um ato é medida pelo número de razões que o determinaram. E, no entanto, nenhuma razão chega a esgotá-la. A verdade da loucura está num automatismo sem cadeias. E quanto mais um ato for esvaziado de razão, maior a possibilidade de ser determinado pela loucura. A verdade da loucura sendo, no homem, a verdade daquilo que é sem razão daquilo que só se produz, segundo Pinel, por uma determinação irrefletida, sem interesse e sem motivo.

4. A verdade humana que descobre a loucura está em contradição com a verdade moral e social do homem.


Até Freud, o modelo para o entendimento dos sintomas psicopatológicos: paralisia geral.
A grande estrutura que comanda toda a percepção da loucura está representada exatamente na análise dos sintomas psiquiátricos da sífilis nervosa.
A sífilis assimila a falta (perversidade, prevaricação, a determinação do ato pelo instinto), a condenação e o seu reconhecimento manifestados e ocultados numa objetividade orgânica.
O tema extremamente importante para o século XIX é que a falta logo encontra seu castigo e sua dimensão objetiva do lado objetivo do organismo. A loucura fecha o homem na objetividade. Para o século XIX, a loucura terá um equivalente externo - a essência da loucura será objetivar o homem considerá-lo no nível das coisas. O fato da loucura ser objetiva em sua totalidade, significa que ela não está em relação com uma atividade delirante central e oculta. Essa definição das loucuras sem delírio impõe uma ruptura conceitual com a concepção do século XVIII.
Na perspectiva nosológica de Pinel e Esquirol as loucuras são consideradas a partir de doi enunciados fundamentais:
· O cérebro é a sede da mente.
· As loucuras se enquadram na concepção de distúrbio funcional, não sendo mais definidas como uma desordem da inteligência.
Considerada, então, no quadro das desordens funcionais, as loucuras eram assim organizadas:

A. Manias

B. Monomanias: monomanias intelectuais, monomanias afetivas ou pensantes, monomanias instintivas (sem delírio).

C. Demências


Pinel pôde observar na Salpetrière que vários alienados não exibiam nenhuma lesão do entendimento, mas eram dominados por uma espécie de instinto de furor, como se as atividades afetivas fossem as únicas lesadas.
Prevalece, assim, no século XIX, a noção de desordem do comportamento, ou seja, os atos praticados independentemente da vontade, em contraposição a concepção da loucura como desordem intelectual (concepção característica do século XVII).
Tomemos o caso específico das monomanias instintivas. Ela provoca uma controvérsia de competência na psiquiatria nascente, entre a instância jurídica e a instância médica: de um lado, encontramos a descrição da categoria médico-legal da monomania homicida e, de outro, o grupo das diversas ações mórbidas (incêndio, roubo, assassinato, embriaguez).
Esquirol, por exemplo, define um status para as loucuras que não apresentam alteração da inteligência, nas quais o que se pode observar é uma desordem da ação. Segundo Dubuisson, os indivíduos que são vítimas dessa espécie de loucura " julgam, raciocinam e se comportam bem, mas são arrebatados pelo menor assunto, muitas vezes sem causa ocasional e somente por uma inclinação irresistível e por uma espécie de perversão das afecções morais, na direção de irritações maníacas, atos inspirados de violência, explosões de furor. É a essa noção que em 1835, os ingleses darão o nome de moral insanity. Vejamos o que comporta essa denominação. de uma lado, trata-se de uma loucura que não tem nenhum de seus signos localizados na esfera da razão (é uma loucura oculta que torna quase invisível a ausência de todo o desatino, loucura transparente e incolor que existe e circula na alma do louco - não parece alienados aos observadores mais superficiais e por isso são mais nocivos e perigosos); de outro lado, essa loucura tão secreta só existe porque explode na objetividade ( violência, desencadeamento dos gestos, às vezes, ato assassino). Ela consiste, então na queda na direção da objetividade mais visível; o encadeamento mecânico dos gestos irresponsáveis.
Uma outra noção que surge no século XIX, é a noção de monomania. Ela é integralmente construída em torno do escândalo que representa um indivíduo que se mostra louco em um ponto e mas permanece razoável em todos os demais pontos. O crime dos monomaníacos multiplicam esse escândalo, bem como o problema da responsabilidade que eles possuem diante dos atos. Um homem normal, sob todos os aspectos, comete repentinamente um crime brutal. Para seu ato criminoso, não é possível encontrar razão ou causa. Para explicá-lo não há lucro, interesse ou paixão. Uma vez cometido, o criminoso transforma-se no que era antes.
No começo do século XIX, os processos criminais eram atravessados por perguntas do tipo:
É possível afirmar que se trata de um louco? Será que a completa ausência de determinações visíveis, o vazio total de razões, permitem concluir pela não-razão daquele que cometeu o ato?
A irresponsabilidade se identifica com a impossibilidade de fazer uso de sua vontade. Portanto, identifica-se com um determinismo.
No entanto, em se tratando de um ato que não foi determinado por nada, não pode ser considerado irresponsável. É normal que um ato seja realizado sem razão, fora de tudo aquilo que poderia motivá-lo, torná-lo útil para um interesse, indispensável para uma paixão? Um ato que não se enraíze em uma determinação é insensato.

A jurisprudência anterior conhecia apenas as crises e os intervalos, ou seja, as sucessões cronológicas das fases da responsabilidade no interior de cada doença. No século XIX, o problema se complica: pode existir uma doença crônica que só se manifesta num único gesto, ou pode-se admitir que, repentinamente, um indivíduo se transforme em outro,, perca essa liberdade pela qual se define e se aliene de si mesmo?
Esquirol tentou definir aquilo que seria essa doença invisível, que inocentaria o crime monstruoso; reuniu seus sintomas: o sujeito age sem cúmplices e sem motivo; seu crime nem sempre diz respeito a pessoas conhecidas; e, uma vez realizado, " tudo se acabou para ele, o objetivo foi alcançado. Após o assassinato, ele fica calmo, não pensa em ocultar-se - essa seria a monomania homicida.
Essa controvérsia leva os sucessores de Esquirol a definir, com maior precisão, a distinção entre loucura e transtornos mentais sintomáticos, nos quais se encontram tanto os impulsos quanto a intoxicação por álcool, ópio e beladona[1].


· Monomania e Toxicomania

A origem da toxicomania é, portanto, bem evidenciada a partir das considerações acima a respeito da monomania e do deslocamento da problemática da loucura como ausência e impossibilidade de pensar (a loucura como problema da inteligência) para a loucura como determinada por uma ato impulsivo. A origem, portanto, da toxicomania situa-se na discussão sobre a mania aplicada a problemática dos distúrbios dos atos impulsivos.
As noções psiquiátricas de delírio, alucinação e obsessão contém as bases da controvérsia atual em torno da toxicomania.
Emmanuel Régis, foi um dos primeiros a empregar o termo " toxicomania". Para ele, as tendências impulsivas devem se aplicar à "solicitação motriz involuntária em direção a um ato e não ao próprio ato, cuja execução pode falhar". Em outras palavras, a excitação maníaca que se manifesta na forma de um ímpeto irresistível dirigido aos venenos artificiais, precede o ato toxicomaníaco. É neste sentido, que a psiquiatria distingue a categoria clínica da toxicomania, caracterizada como uma necessidade imperiosa de se intoxicar, da série metonímica: morfinomania, eteromania, cocainomania, haxixomania, cloromania e opiomania.

*
[1] Em seu livro Arquivos da Loucura. Juliano Moreira e a Descontinuidade Histórica da Psicquiatria (2003), Vera Portocarrero apresenta uma breve descrição a respeito da idéia de se criar um reformatório para alcóolatras no Rio de Janeiro na época da fundação da colônia. Apesar de, efetivamente, não ter acontecido a criação desse reformatório, houve a idéia - o que mostra a possibilidade de viabilizar, na prática a separação entre os " verdadeiros doentes" (a quem os hospícios estariam destinados) e os " anormais" (que, no final do século XIX, eram considerados como passíveis de se submeterem à ordem social por meio de profilaxia específica.
Um projeto de reformatório para alcoólatra surge a partir da concepção de que todo degenerado pode ser recuperado e deve, portanto, ser assistido de acordo com suas particularidade e não de forma indiferenciada, misturando-se com os verdadeiros doentes mentais nos manicômios

Deprimido ou triste?

Deprimido ou triste?
Cláudia Henschel de Lima. Adilson Pimentel Valentim (aluno do 6º período do curso de psicologia do UNI-IBMR; auxiliar de pesquisa do Laboratório de Investigação das Psicopatologias Contemporâneas). Natália Ferreira Rodrigues (aluna do 6º período do curso de psicologia do UNI-IBMR; auxiliar de pesquisa do Laboratório de Investigação das Psicopatologias Contemporâneas).

A época em que vivemos
Vivemos em uma época de elevado consumo de antidepressivos e estimulantes. Os dados divulgados pela Secretaria Nacional Antidrogas do governo do Brasil, em 2007, evidenciam que o consumo de estimulantes, anfetaminas e benzodiazepínicos é maior do que o próprio consumo de cocaína. Esses dados mostram um fato que a atenção concentrada no consumo de drogas ilícitas encobre: a necessidade, por parte da população brasileira de consumir substâncias que tratam as alterações do humor – seja para produzir sentimentos de ânimo, alegria ou felicidade (o uso de estimulantes e anfetaminas), seja para acalmar a alma atormentada pela falta de sono ou paz (benzodiazepínicos). Essas substâncias podem representar uma tentativa do ser humano de solucionar rapidamente, e de localizar como uma doença do cérebro, um estado de tristeza e desânimo que habita o ser humano diante da perda de alguém muito querido, da dificuldade de realizar um sonho ou de exercer uma profissão que idealizou para si mesmo. A psicanálise aborda esses casos considerando o individuo, definindo dois tipos de tristeza: o luto e a melancolia. E criou uma forma de tratamento em que, pela palavra, o analista localiza na história de vida do paciente (seus pais, seu trabalho, sua dedicação ao estudo, sua forma de amar e desejar), os momentos em que a tristeza pouco a pouco se instalou em sua vida. O objetivo deste tratamento é proporcionar legitimidade aos sentimentos do paciente, construir um modo de enfrentar as perdas e as situações difíceis da vida de forma menos sofrida e menos sacrificante.

Estar de Luto
Freud, o criador da psicanálise, define que o luto é, em geral, a reação à perda de uma pessoa querida, à decepção profunda em relação a ideais (como a honestidade, a integridade moral, por exemplo) ou em relação a uma pessoa. Dessa forma, não é preciso encarar o luto como uma doença que precisa ser tratada com antidepressivo. Trata-se de uma situação que se resolve ao longo do tempo – ainda que sobre um pouco de saudade de quem se foi para sempre, ou mágoa em relação à pessoa que causou a decepção.
O luto se caracteriza pela presença de um estado de ânimo doloroso e pela perda do interesse pelo mundo exterior – com a exceção de tudo o que identifique ou lembre a pessoa que perdemos. Por isso, outra característica do sentimento de luto é a dificuldade de escolher um novo objeto de amor que possa substituir o que perdemos, e um desinteresse por qualquer tipo de atividade que não esteja relacionado com a lembrança do que perdemos ou da decepção sofrida. Normalmente todos nós aceitamos a explicação de que essa inibição e essa limitação do Eu sejam a expressão de uma entrega exclusiva ao luto, e de que, portanto, o ser humano não estaria disponível para outros interesses. No luto, o objeto amado não existe mais, de modo que o respeito por essa realidade exige a retirada de toda a libido das relações anteriormente mantidas com o objeto amado que perdemos. Nessas ocasiões, o ser humano se opõe a tentar esquecer e superar a perda e a decepção. Isso é compreensível, pois não é fácil abandonar, de boa vontade, uma posição libidinal antes ocupada. Ao contrário, essa superação só ocorre aos poucos e com grande dispêndio de tempo e energia. Por esse motivo, não devemos cair na armadilha de que é fácil esquecer alguém que amamos ou que estamos demorando muito tempo para superar uma perda – e que, por isso, estaríamos doentes.
É preciso respeitar em cada um de nós o tempo necessário para elaborar nossos sentimentos.

Sentir-se Melancólico
A melancolia tem semelhança com o luto: caracteriza-se psiquicamente por um estado de ânimo profundamente doloroso, por uma suspensão do interesse pelo mundo externo, pela perda da capacidade de amar, pela inibição geral das capacidades de realizar tarefas. Mas a depreciação do sentimento-de-si e a perda da libido são as principais diferenças com relação ao luto. Essa depreciação manifesta-se por censuras e insultos a si mesmo, evoluindo de forma crescente até chegar a idéia de punição. A perda na melancolia pode ser de natureza mais ideal, onde o objeto não morreu realmente, mas perdeu-se como objeto de amor (por exemplo, no caso de uma noiva abandonada). É identificada a perda, mas não se sabe com clareza o que foi perdido. Esse desconhecimento ocorre até mesmo quando a perda desencadeadora da melancolia é conhecida, pois, se a pessoa sabe quem ele perdeu, não sabe dizer com exatidão o que se perdeu em sua alma.
Nessa depreciação do sentimento-de-si, há um empobrecimento do Eu. Se no luto, o mundo tornou-se pobre e vazio, na melancolia, foi o próprio Eu que empobreceu: a pessoa descreve a si mesma como não tendo valor, como sendo incapaz e moralmente reprovável. Ela faz autocensuras e insulta a si mesma e espera ser rejeitada e punida; sofre de insônia e se recusa a comer (por ex. anorexia). O processo psicológico da melancolia é muito peculiar: ocorre a perda da libido, que motiva o ser humano a apegar-se à vida - o melancólico experimenta essa perda de libido como anestesia sexual. Na melancolia, surge uma condição ausente do luto normal. Se o luto só é desencadeado pela perda real do objeto, na melancolia, se tece em torno do objeto uma rede de vários conflitos isolados, nos quais o amor e o ódio se enfrentam: o ódio serve para separar a libido do objeto, o amor, para defender essa posição da libido contra o ataque.
A dificuldade no tratamento da melancolia é fazer o paciente localizar em sua história de vida, os momentos em que ocorreu a perda de libido: os momentos em que diante de uma pessoa que o decepcionou ou frente a uma perda ou uma dificuldade financeira, apareceram sentimentos de ruína, autopunição, culpa, insultos a si mesmo, perda do apetite e um desânimo profundo. Por isso, o tratamento psicanalítico é longo e deve ser levado com dedicação e calma pelo paciente. O uso de medicação se faz em casos graves e com acompanhamento psiquiátrico, paralelo a psicanálise.

QUE LUGAR PARA A PSICANÁLISE? – PSICANÁLISE E TOXICOMANIA

QUE LUGAR PARA A PSICANÁLISE? – PSICANÁLISE E TOXICOMANIA[1]
Cláudia Henschel de Lima – Professora Adjunta do Curso de Psicologia do UNI-IBMR. Membro da EBP-AMP. Coordenadora do LAPSICON


Introdução
O ponto de partida deste trabalho é o problema que Jacques-Alain Miller formula no seminário L´Autre Qui N´existe pas et ses Comités d´Éthique (1996): Qual é o status da teoria e do tratamento analíticos na era da globalização? O objetivo deste trabalho é apresentar um esboço da particularização desse problema na investigação teórico-clínica da toxicomania. A hipótese é que a toxicomania seria uma versão da proliferação do gozo, que invade o laço social contemporâneo e fortalece a supressão do sujeito. Sendo assim, a toxicomania seria uma versão em que se verifica a baixa efetividade da metáfora paterna e a pluralização do significante-mestre. Essa particularização é, ainda, uma forma de se colocar o problema a respeito da possibilidade da psicanálise em nossos dias. A fim de apresentar os primeiros avanços dessa hipótese, dividiremos o trabalho em duas partes:
· O horizonte da psicanálise na era da globalização.
· Psicanálise e toxicomania.
O horizonte da psicanálise na época da globalização: O inconsciente é a política
O axioma lacaniano o inconsciente é a política coloca o problema referente ao futuro da psicanálise: “no que está por vir, ainda haverá lugar para a psicanálise?”[2]
No ensino de Lacan, o inconsciente obedece ao laço social, o inconsciente é a política. Com base nesse axioma, Jacques-Alain Miller (2002) elabora uma periodização do ensino de Lacan, no qual o avanço conceitual desse ensino é inseparável da estrutura discursiva que domina uma época. Essa periodização começa com o Lacan dos anos 60: o Lacan do Livro 7. A Ética da Psicanálise[3]. Esse seminário apresenta, então, um status bastante singular: ao mesmo tempo em que é contemporâneo da época das lutas de liberação, da valorização da transgressão[4], apresenta uma leitura explícita do texto freudiano O Mal-Estar na Civilização a partir da hipótese de que o capitalismo seria ordenado pela ética puritana e por uma prática disciplinar. A hipótese com a qual Jacques-Alain Miller (2002) trabalha é que, no seminário da ética, a transgressão seria pensada em referência à lei. Assim, nesse seminário, marcadamente clássico, Lacan situaria Freud no interior do regime da referência disciplinar. Isso se destaca na piada sobre Freud e a rainha Vitória: a rainha Vitória seria a causa histórica da psicanálise. Trata-se de uma piada que nos informa que, para o Lacan do seminário da ética, a psicanálise seria produto de uma época marcada pela interdição, pela repressão - características próprias da sociedade disciplinar.
O dispositivo teórico de Freud estaria, assim, organizado em torno da interdição, da amputação, do sacrifício, da disciplina do gozo. Miller localiza na outra extremidade do ensino de Lacan o seminário O Avesso da Psicanálise (1969). Nesse seminário é evidente a afirmação de que a definição do capitalismo pela ética puritana está ultrapassada. Já em 1969, vigora a equação capitalismo-ética da permissividade. É ainda essa permissividade que, segundo Miller (1990), define nossa atualidade e seus impasses. De fato, vivemos a exacerbação da democracia, do imperativo liberal de deixar a cada um a possibilidade de produzir, de fazer o que bem quiser, já que, no final, tudo se ajusta segundo o funcionamento do mercado.
No esquadro dessa equação, o trabalho de Lacan concentrou-se no recuo da concepção a respeito do Nome-do-Pai como regulador do gozo, na disjunção entre saber e verdade (o mestre não é o Pai) e na retomada do conceito freudiano de pulsão. O conceito de pulsão escreve o empuxo em direção a uma satisfação que se aparelha da linguagem[5]. A pulsão é sempre ativa; donde sua característica de pressão constante. A pulsão sempre se satisfaz; donde a característica de indiferença quanto ao seu objeto (Freud, 1915).
· Estilo de vida contemporâneo: Ciência e capitalismo
Desde o século XVII, desde a revolução galileana, cujo acontecimento fundamental foi tornar possível a matematização do real, a ciência é o determinante da civilização. O peso da importância desse acontecimento reside na fundação de um novo sistema do mundo, na reconstrução da nossa civilização a partir de novos fundamentos - em vez das trevas da revelação, o racionalismo; em vez das marcas de Deus, o deserto do real; em vez da relação direta entre o homem e a natureza, o símbolo matemático; em vez da necessidade natural, o desejo e o gozo. A divisão de Descartes entre resolver problemas de geometria e entregar-se à navegação comercial é paradigmática do laço que, a partir da revolução científica, se estabelece entre ciência e capitalismo. O que é, então, a nossa época senão o aprofundamento desse laço?
Contemporaneamente, a globalização demonstra a consistência do laço que existe entre ciência e capitalismo. De fato, a globalização é inseparável de uma revolução tecnológica que ocorreu no eixo da linguagem: o apogeu das máquinas lógicas e o declínio do homem. A cibernética foi, a partir dos anos 1940, a expressão máxima do recuo do projeto humanista - que conferia ao homem a dignidade de senhor de seus próprios pensamentos - e o apogeu da autonomia do simbólico, da hegemonia das leis da linguagem, sobre o pensamento (Dupuy, 1996)[6]. Essa autonomia refletir-se-á na possibilidade de a informação difundir-se pelo espaço e no tempo através dos computadores anulando, assim, os obstáculos referentes à distância e ao tempo gasto para a chegada da informação. A exacerbação do automatismo da linguagem pela combinatória lingüística, a materialização dessa combinatória na máquina computacional, a expansão do real como rede de informação e a anulação da distância e do tempo que a expansão dessa rede produz são alguns dos elementos que delimitam a revolução tecnológica da cibernética. Essa revolução tecnológica rebate-se sobre o domínio das relações econômicas e políticas, possibilitando a aceleração dos fluxos de mercadorias e de capitais em escala mundial, aumentando a integração entre países, pela supressão das distâncias e gerando uma economia cada vez mais interdependente. Donde a passagem da produção para o consumo, da formação da cidade para a concentração em shopping centers, do cidadão para o consumidor, e a equação contemporânea entre rentabilidade e mercado, da qual o sujeito está suprimido. O que especifica então nossa época é uma economia de mercado cujo funcionamento é automático e auto-regulado (Di Ciaccia, 2003). Dessa forma, a globalização é inseparável da utopia universalizante do mercado, do consumo e do shopping center[7]. Entre 1972 e 1977, nas Conferências Italianas, Lacan escreve a fórmula do discurso capitalista, torcendo a fração esquerda da fórmula do discurso do mestre. Com essa torção, S é alojado no lugar de S1 e passa a ter livre acesso ao objeto. Essa torção escreve que, em nossa época, não se trata da promoção da histeria e de sua divisão subjetiva. Trata-se da promoção do sujeito destituído de referências e de sua alienação como objeto de consumo.“Consumo, logo sou”, ou “Todos, consumidores!”. Em resposta à hegemonia da globalização e à ausência de referências que lhe é correlata, e como nostalgia da época do Ideal, constata-se o surgimento dos pequenos grupos, de guetos ou nichos que oferecem um certo grau de codificação: chamado desesperado ao reino decaído do Nome-do-Pai (Miller, 2002)[8].
O que orienta nossa prática hoje? – Psicanálise e toxicomania
A origem do termo toxicomania remonta à perspectiva nosológica das monomanias segundo Esquirol. A origem do termo situa-se, portanto, no interior do debate médico-jurídico a respeito dos distúrbios dos atos impulsivos[9] que norteava a clínica psiquiátrica do século XIX. Em oposição a essa concepção situaríamos a clínica freudiana, da época de Freud, na qual a toxicomania responderia a um desbalanceamento entre as exigências da civilização, que se manifestavam pelo interdito e pelo ideal, e o programa do princípio de prazer.
Nossos dias são profundamente diferentes da época de Freud. Encontramo-nos na época do aprofundamento, da sofisticação, do vivo pelo avanço da bioquímica. Suas conseqüências não poderiam deixar de ser a subordinação do saber médico à biologia, a redução do corpo ao circuito químico e neural, e o apagamento de sua vocação clínica pela eficácia material da prescrição da substância. É a eficácia da substância sobre esse circuito que orienta o consumo e que justifica sua produção pela indústria farmacêutica[10]. E onde essa eficácia é mais manifesta senão na produção química da felicidade no corpo, que torna supérflua a intervenção do sujeito, mesmo na chamada abstinência? Felicidade química é um dos emblemas para a versão contemporânea do gozo que consome, que devora o sujeito, que o aliena à substância. A época lacaniana é a época do dependente químico. Nesse sentido, a utilização da substância tóxica verifica a mudança de eixo do ensino de Lacan a partir da expansão do capitalismo: a pulverização dos S1, a proliferação do gozo e o recuo inevitável do Nome-do-Pai de sua função disciplinadora do gozo. Na época lacaniana, a toxicomania responde ao imperativo de gozo, próprio da utopia uniformizante do capitalismo de nossa época: “Todos os sujeitos, objetos de consumo!”. Nesse contexto, o futuro da psicanálise não depende da sua capacidade de formar nichos, abrigos contra a ciência ou seus produtos ou de se dissolver por completo em psicoterapias. Depende, precisamente, da sua capacidade de desobjetivar o sujeito, e de fazer o embate com o real, que a promessa da felicidade do gozo químico insiste em colonizar.
Bibliografia
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DI CIACCIA, A . La Etica en La Era de La Globalización; in Revista Lacaniana de Psicoanalisis. Ano 1, n.1, agosto de 2003. Buenos Aires, EOL.
DUPUY, J.P. Nas Origens das Ciências Cognitivas. São Paulo, Unesp, 1996.
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FREUD, S. As Pulsões e suas Vicissitudes (1915), in Obras Completas. Rio de Janeiro, Ed. Imago, 1983. Vol. XIV.
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MILLER, J.A . L´Autre Qui N´Existe Pas e ses Comités d’ Éthique. Seminário Inédito. 1996.
MILLER, J.A . Le Desenchantement de la Psychanalyse. Seminário Inédito. 2002.
SAAD, A .C. Tratamento para Dependência de Drogas: Uma Revisão da História e dos Modelos; in Álcool e Drogas – Usos, Dependência e Tratamentos (org. Marcelo Santos Cruz, Sallette Maria Barros Ferreira). Rio de Janeiro, Edições IPUB/CUCA, 2001.
SINATRA, E. La Toxicomanía Generalizada y Empuje al Olvido; in SILLITTI, D., SINATRA, E. e TARRAB, M. Más Allá De Las Drogas. Estudios Psicoanalíticos. Bolívia, Ed. Plural.
SILLITTI, D. La Drogadicción desde el Psicoanálisis; in SILLITTI, D., SINATRA, E. e TARRAB, M. Más Allá De Las Drogas. Estudios Psicoanalíticos. Bolívia, Ed. Plural.
VIGANÓ, C. O Fármaco e a Droga, in Clique. Palavras e Pílulas, A Psicanálise na Era dos Medicamentos. Belo Horizonte, Revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise do Campo Freudiano, n.1, 2002.
[1] Este trabalho foi apresentado nas XIV Jornadas Clínicas da EBP-RJ, O Trabalho da Sessão: “ que se diga...”, em 7 e 8 de novembro de 2003. Na época, o desenvolvimento do trabalho contou com a participação de: Fany Chung Chan e Elaine Polly.
[2] Brousse, M.H. O Inconsciente é a Política. São Paulo: EBP, 2003, p. 56.
[3] Isso significa que estão excluídas dessa periodização desde a tese de Lacan até mais ou menos 1953.
[4] A colocação da obra de Sade no cerne de sua leitura do conceito de pulsão, as referências a Bataille e a Maurice Blanchot manifestam a atualização da leitura de Freud a partir da transgressão.
[5] Há uma maneira clássica de se estabelecer a diferença entre o homem e o animal. Poder-se-ia conceber essa diferença como lingüística, e afirmar que o ser humano, diferentemente do animal, é capaz de oferecer uma resposta simbólica (Cassirer, 1994). A psicanálise e, mais precisamente, o retorno de Freud via Lacan, submete essa diferença clássica às conseqüências da elaboração freudiana do conceito de pulsão.
[6] A logificação, extremamente valorizada pela cibernética, conhece três momentos de expansão, desde sua emergência nos anos 1940. O primeiro assimila a mente a uma máquina lógica. O segundo estende essa assimilação ao cérebro: o cérebro também é uma máquina lógica e, sendo assim, mente e cérebro são a mesma coisa. O terceiro marca a entrada do computador em cena.
[7] No mundo globalizado, significantes como united colors of the world, world music, melting pot manifestam a presença dessa utopia (Henschel de Lima & Alves, 1998).
[8] O programa dos Doze Passos é um exemplo do núcleo em torno do qual se organizam os grupos de mútua-ajuda, da dependência química e do alcoolismo. Ele revela sua organização como nicho no seio do consumo generalizado. Os três primeiros passos servem de amostra: 1. Admissão da impotência frente ao álcool e/ou substância; 2. Crença em um Poder Superior; 3. Submissão da vontade ao Poder Superior (Edwards, 1997).
[9] Havia um debate extenso acerca da responsabilidade moral do indivíduo que comete um ato impulsivo em forma de crime, de tentativa de suicídio. A ingestão de substâncias estaria subordinada ao mesmo debate.
[10] Esse contínuo entre mercado e biologia se explica pelo acontecimento da revolução terapêutica que começou no final dos anos 1950 com a clorpromazina e se expande com a imipramina e as benzodiazepinas (Laurent, 2002; Viganó, 2002).