segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Deprimido ou triste?

Deprimido ou triste?
Cláudia Henschel de Lima. Adilson Pimentel Valentim (aluno do 6º período do curso de psicologia do UNI-IBMR; auxiliar de pesquisa do Laboratório de Investigação das Psicopatologias Contemporâneas). Natália Ferreira Rodrigues (aluna do 6º período do curso de psicologia do UNI-IBMR; auxiliar de pesquisa do Laboratório de Investigação das Psicopatologias Contemporâneas).

A época em que vivemos
Vivemos em uma época de elevado consumo de antidepressivos e estimulantes. Os dados divulgados pela Secretaria Nacional Antidrogas do governo do Brasil, em 2007, evidenciam que o consumo de estimulantes, anfetaminas e benzodiazepínicos é maior do que o próprio consumo de cocaína. Esses dados mostram um fato que a atenção concentrada no consumo de drogas ilícitas encobre: a necessidade, por parte da população brasileira de consumir substâncias que tratam as alterações do humor – seja para produzir sentimentos de ânimo, alegria ou felicidade (o uso de estimulantes e anfetaminas), seja para acalmar a alma atormentada pela falta de sono ou paz (benzodiazepínicos). Essas substâncias podem representar uma tentativa do ser humano de solucionar rapidamente, e de localizar como uma doença do cérebro, um estado de tristeza e desânimo que habita o ser humano diante da perda de alguém muito querido, da dificuldade de realizar um sonho ou de exercer uma profissão que idealizou para si mesmo. A psicanálise aborda esses casos considerando o individuo, definindo dois tipos de tristeza: o luto e a melancolia. E criou uma forma de tratamento em que, pela palavra, o analista localiza na história de vida do paciente (seus pais, seu trabalho, sua dedicação ao estudo, sua forma de amar e desejar), os momentos em que a tristeza pouco a pouco se instalou em sua vida. O objetivo deste tratamento é proporcionar legitimidade aos sentimentos do paciente, construir um modo de enfrentar as perdas e as situações difíceis da vida de forma menos sofrida e menos sacrificante.

Estar de Luto
Freud, o criador da psicanálise, define que o luto é, em geral, a reação à perda de uma pessoa querida, à decepção profunda em relação a ideais (como a honestidade, a integridade moral, por exemplo) ou em relação a uma pessoa. Dessa forma, não é preciso encarar o luto como uma doença que precisa ser tratada com antidepressivo. Trata-se de uma situação que se resolve ao longo do tempo – ainda que sobre um pouco de saudade de quem se foi para sempre, ou mágoa em relação à pessoa que causou a decepção.
O luto se caracteriza pela presença de um estado de ânimo doloroso e pela perda do interesse pelo mundo exterior – com a exceção de tudo o que identifique ou lembre a pessoa que perdemos. Por isso, outra característica do sentimento de luto é a dificuldade de escolher um novo objeto de amor que possa substituir o que perdemos, e um desinteresse por qualquer tipo de atividade que não esteja relacionado com a lembrança do que perdemos ou da decepção sofrida. Normalmente todos nós aceitamos a explicação de que essa inibição e essa limitação do Eu sejam a expressão de uma entrega exclusiva ao luto, e de que, portanto, o ser humano não estaria disponível para outros interesses. No luto, o objeto amado não existe mais, de modo que o respeito por essa realidade exige a retirada de toda a libido das relações anteriormente mantidas com o objeto amado que perdemos. Nessas ocasiões, o ser humano se opõe a tentar esquecer e superar a perda e a decepção. Isso é compreensível, pois não é fácil abandonar, de boa vontade, uma posição libidinal antes ocupada. Ao contrário, essa superação só ocorre aos poucos e com grande dispêndio de tempo e energia. Por esse motivo, não devemos cair na armadilha de que é fácil esquecer alguém que amamos ou que estamos demorando muito tempo para superar uma perda – e que, por isso, estaríamos doentes.
É preciso respeitar em cada um de nós o tempo necessário para elaborar nossos sentimentos.

Sentir-se Melancólico
A melancolia tem semelhança com o luto: caracteriza-se psiquicamente por um estado de ânimo profundamente doloroso, por uma suspensão do interesse pelo mundo externo, pela perda da capacidade de amar, pela inibição geral das capacidades de realizar tarefas. Mas a depreciação do sentimento-de-si e a perda da libido são as principais diferenças com relação ao luto. Essa depreciação manifesta-se por censuras e insultos a si mesmo, evoluindo de forma crescente até chegar a idéia de punição. A perda na melancolia pode ser de natureza mais ideal, onde o objeto não morreu realmente, mas perdeu-se como objeto de amor (por exemplo, no caso de uma noiva abandonada). É identificada a perda, mas não se sabe com clareza o que foi perdido. Esse desconhecimento ocorre até mesmo quando a perda desencadeadora da melancolia é conhecida, pois, se a pessoa sabe quem ele perdeu, não sabe dizer com exatidão o que se perdeu em sua alma.
Nessa depreciação do sentimento-de-si, há um empobrecimento do Eu. Se no luto, o mundo tornou-se pobre e vazio, na melancolia, foi o próprio Eu que empobreceu: a pessoa descreve a si mesma como não tendo valor, como sendo incapaz e moralmente reprovável. Ela faz autocensuras e insulta a si mesma e espera ser rejeitada e punida; sofre de insônia e se recusa a comer (por ex. anorexia). O processo psicológico da melancolia é muito peculiar: ocorre a perda da libido, que motiva o ser humano a apegar-se à vida - o melancólico experimenta essa perda de libido como anestesia sexual. Na melancolia, surge uma condição ausente do luto normal. Se o luto só é desencadeado pela perda real do objeto, na melancolia, se tece em torno do objeto uma rede de vários conflitos isolados, nos quais o amor e o ódio se enfrentam: o ódio serve para separar a libido do objeto, o amor, para defender essa posição da libido contra o ataque.
A dificuldade no tratamento da melancolia é fazer o paciente localizar em sua história de vida, os momentos em que ocorreu a perda de libido: os momentos em que diante de uma pessoa que o decepcionou ou frente a uma perda ou uma dificuldade financeira, apareceram sentimentos de ruína, autopunição, culpa, insultos a si mesmo, perda do apetite e um desânimo profundo. Por isso, o tratamento psicanalítico é longo e deve ser levado com dedicação e calma pelo paciente. O uso de medicação se faz em casos graves e com acompanhamento psiquiátrico, paralelo a psicanálise.

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