segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

QUE LUGAR PARA A PSICANÁLISE? – PSICANÁLISE E TOXICOMANIA

QUE LUGAR PARA A PSICANÁLISE? – PSICANÁLISE E TOXICOMANIA[1]
Cláudia Henschel de Lima – Professora Adjunta do Curso de Psicologia do UNI-IBMR. Membro da EBP-AMP. Coordenadora do LAPSICON


Introdução
O ponto de partida deste trabalho é o problema que Jacques-Alain Miller formula no seminário L´Autre Qui N´existe pas et ses Comités d´Éthique (1996): Qual é o status da teoria e do tratamento analíticos na era da globalização? O objetivo deste trabalho é apresentar um esboço da particularização desse problema na investigação teórico-clínica da toxicomania. A hipótese é que a toxicomania seria uma versão da proliferação do gozo, que invade o laço social contemporâneo e fortalece a supressão do sujeito. Sendo assim, a toxicomania seria uma versão em que se verifica a baixa efetividade da metáfora paterna e a pluralização do significante-mestre. Essa particularização é, ainda, uma forma de se colocar o problema a respeito da possibilidade da psicanálise em nossos dias. A fim de apresentar os primeiros avanços dessa hipótese, dividiremos o trabalho em duas partes:
· O horizonte da psicanálise na era da globalização.
· Psicanálise e toxicomania.
O horizonte da psicanálise na época da globalização: O inconsciente é a política
O axioma lacaniano o inconsciente é a política coloca o problema referente ao futuro da psicanálise: “no que está por vir, ainda haverá lugar para a psicanálise?”[2]
No ensino de Lacan, o inconsciente obedece ao laço social, o inconsciente é a política. Com base nesse axioma, Jacques-Alain Miller (2002) elabora uma periodização do ensino de Lacan, no qual o avanço conceitual desse ensino é inseparável da estrutura discursiva que domina uma época. Essa periodização começa com o Lacan dos anos 60: o Lacan do Livro 7. A Ética da Psicanálise[3]. Esse seminário apresenta, então, um status bastante singular: ao mesmo tempo em que é contemporâneo da época das lutas de liberação, da valorização da transgressão[4], apresenta uma leitura explícita do texto freudiano O Mal-Estar na Civilização a partir da hipótese de que o capitalismo seria ordenado pela ética puritana e por uma prática disciplinar. A hipótese com a qual Jacques-Alain Miller (2002) trabalha é que, no seminário da ética, a transgressão seria pensada em referência à lei. Assim, nesse seminário, marcadamente clássico, Lacan situaria Freud no interior do regime da referência disciplinar. Isso se destaca na piada sobre Freud e a rainha Vitória: a rainha Vitória seria a causa histórica da psicanálise. Trata-se de uma piada que nos informa que, para o Lacan do seminário da ética, a psicanálise seria produto de uma época marcada pela interdição, pela repressão - características próprias da sociedade disciplinar.
O dispositivo teórico de Freud estaria, assim, organizado em torno da interdição, da amputação, do sacrifício, da disciplina do gozo. Miller localiza na outra extremidade do ensino de Lacan o seminário O Avesso da Psicanálise (1969). Nesse seminário é evidente a afirmação de que a definição do capitalismo pela ética puritana está ultrapassada. Já em 1969, vigora a equação capitalismo-ética da permissividade. É ainda essa permissividade que, segundo Miller (1990), define nossa atualidade e seus impasses. De fato, vivemos a exacerbação da democracia, do imperativo liberal de deixar a cada um a possibilidade de produzir, de fazer o que bem quiser, já que, no final, tudo se ajusta segundo o funcionamento do mercado.
No esquadro dessa equação, o trabalho de Lacan concentrou-se no recuo da concepção a respeito do Nome-do-Pai como regulador do gozo, na disjunção entre saber e verdade (o mestre não é o Pai) e na retomada do conceito freudiano de pulsão. O conceito de pulsão escreve o empuxo em direção a uma satisfação que se aparelha da linguagem[5]. A pulsão é sempre ativa; donde sua característica de pressão constante. A pulsão sempre se satisfaz; donde a característica de indiferença quanto ao seu objeto (Freud, 1915).
· Estilo de vida contemporâneo: Ciência e capitalismo
Desde o século XVII, desde a revolução galileana, cujo acontecimento fundamental foi tornar possível a matematização do real, a ciência é o determinante da civilização. O peso da importância desse acontecimento reside na fundação de um novo sistema do mundo, na reconstrução da nossa civilização a partir de novos fundamentos - em vez das trevas da revelação, o racionalismo; em vez das marcas de Deus, o deserto do real; em vez da relação direta entre o homem e a natureza, o símbolo matemático; em vez da necessidade natural, o desejo e o gozo. A divisão de Descartes entre resolver problemas de geometria e entregar-se à navegação comercial é paradigmática do laço que, a partir da revolução científica, se estabelece entre ciência e capitalismo. O que é, então, a nossa época senão o aprofundamento desse laço?
Contemporaneamente, a globalização demonstra a consistência do laço que existe entre ciência e capitalismo. De fato, a globalização é inseparável de uma revolução tecnológica que ocorreu no eixo da linguagem: o apogeu das máquinas lógicas e o declínio do homem. A cibernética foi, a partir dos anos 1940, a expressão máxima do recuo do projeto humanista - que conferia ao homem a dignidade de senhor de seus próprios pensamentos - e o apogeu da autonomia do simbólico, da hegemonia das leis da linguagem, sobre o pensamento (Dupuy, 1996)[6]. Essa autonomia refletir-se-á na possibilidade de a informação difundir-se pelo espaço e no tempo através dos computadores anulando, assim, os obstáculos referentes à distância e ao tempo gasto para a chegada da informação. A exacerbação do automatismo da linguagem pela combinatória lingüística, a materialização dessa combinatória na máquina computacional, a expansão do real como rede de informação e a anulação da distância e do tempo que a expansão dessa rede produz são alguns dos elementos que delimitam a revolução tecnológica da cibernética. Essa revolução tecnológica rebate-se sobre o domínio das relações econômicas e políticas, possibilitando a aceleração dos fluxos de mercadorias e de capitais em escala mundial, aumentando a integração entre países, pela supressão das distâncias e gerando uma economia cada vez mais interdependente. Donde a passagem da produção para o consumo, da formação da cidade para a concentração em shopping centers, do cidadão para o consumidor, e a equação contemporânea entre rentabilidade e mercado, da qual o sujeito está suprimido. O que especifica então nossa época é uma economia de mercado cujo funcionamento é automático e auto-regulado (Di Ciaccia, 2003). Dessa forma, a globalização é inseparável da utopia universalizante do mercado, do consumo e do shopping center[7]. Entre 1972 e 1977, nas Conferências Italianas, Lacan escreve a fórmula do discurso capitalista, torcendo a fração esquerda da fórmula do discurso do mestre. Com essa torção, S é alojado no lugar de S1 e passa a ter livre acesso ao objeto. Essa torção escreve que, em nossa época, não se trata da promoção da histeria e de sua divisão subjetiva. Trata-se da promoção do sujeito destituído de referências e de sua alienação como objeto de consumo.“Consumo, logo sou”, ou “Todos, consumidores!”. Em resposta à hegemonia da globalização e à ausência de referências que lhe é correlata, e como nostalgia da época do Ideal, constata-se o surgimento dos pequenos grupos, de guetos ou nichos que oferecem um certo grau de codificação: chamado desesperado ao reino decaído do Nome-do-Pai (Miller, 2002)[8].
O que orienta nossa prática hoje? – Psicanálise e toxicomania
A origem do termo toxicomania remonta à perspectiva nosológica das monomanias segundo Esquirol. A origem do termo situa-se, portanto, no interior do debate médico-jurídico a respeito dos distúrbios dos atos impulsivos[9] que norteava a clínica psiquiátrica do século XIX. Em oposição a essa concepção situaríamos a clínica freudiana, da época de Freud, na qual a toxicomania responderia a um desbalanceamento entre as exigências da civilização, que se manifestavam pelo interdito e pelo ideal, e o programa do princípio de prazer.
Nossos dias são profundamente diferentes da época de Freud. Encontramo-nos na época do aprofundamento, da sofisticação, do vivo pelo avanço da bioquímica. Suas conseqüências não poderiam deixar de ser a subordinação do saber médico à biologia, a redução do corpo ao circuito químico e neural, e o apagamento de sua vocação clínica pela eficácia material da prescrição da substância. É a eficácia da substância sobre esse circuito que orienta o consumo e que justifica sua produção pela indústria farmacêutica[10]. E onde essa eficácia é mais manifesta senão na produção química da felicidade no corpo, que torna supérflua a intervenção do sujeito, mesmo na chamada abstinência? Felicidade química é um dos emblemas para a versão contemporânea do gozo que consome, que devora o sujeito, que o aliena à substância. A época lacaniana é a época do dependente químico. Nesse sentido, a utilização da substância tóxica verifica a mudança de eixo do ensino de Lacan a partir da expansão do capitalismo: a pulverização dos S1, a proliferação do gozo e o recuo inevitável do Nome-do-Pai de sua função disciplinadora do gozo. Na época lacaniana, a toxicomania responde ao imperativo de gozo, próprio da utopia uniformizante do capitalismo de nossa época: “Todos os sujeitos, objetos de consumo!”. Nesse contexto, o futuro da psicanálise não depende da sua capacidade de formar nichos, abrigos contra a ciência ou seus produtos ou de se dissolver por completo em psicoterapias. Depende, precisamente, da sua capacidade de desobjetivar o sujeito, e de fazer o embate com o real, que a promessa da felicidade do gozo químico insiste em colonizar.
Bibliografia
BROUSSE, M.H. O Inconsciente é a Política. São Paulo, EBP - São Paulo, 2003.
DI CIACCIA, A . La Etica en La Era de La Globalización; in Revista Lacaniana de Psicoanalisis. Ano 1, n.1, agosto de 2003. Buenos Aires, EOL.
DUPUY, J.P. Nas Origens das Ciências Cognitivas. São Paulo, Unesp, 1996.
EDWARDS, G. Os Alcoólicos Anônimos como um Espelho Diante da Natureza; in GRIFFITH, E. e DALE, C. Psicoterapia e Tratamento das Adições. Porto Alegre. Ed. Artes Médicas, 1997.
FREUD, S. As Pulsões e suas Vicissitudes (1915), in Obras Completas. Rio de Janeiro, Ed. Imago, 1983. Vol. XIV.
HENSCHEL DE LIMA, C. e ALVES, J.R., A . O Mal-Estar na Cidade: Segregação e Toxicomania; in O Brilho da Infelicidade (org. Lenita Bentes e Ronaldo Fabião). Rio de Janeiro, Ed. Contra-Capa, 1998.
MILLER, J.A . L´Autre Qui N´Existe Pas e ses Comités d’ Éthique. Seminário Inédito. 1996.
MILLER, J.A . Le Desenchantement de la Psychanalyse. Seminário Inédito. 2002.
SAAD, A .C. Tratamento para Dependência de Drogas: Uma Revisão da História e dos Modelos; in Álcool e Drogas – Usos, Dependência e Tratamentos (org. Marcelo Santos Cruz, Sallette Maria Barros Ferreira). Rio de Janeiro, Edições IPUB/CUCA, 2001.
SINATRA, E. La Toxicomanía Generalizada y Empuje al Olvido; in SILLITTI, D., SINATRA, E. e TARRAB, M. Más Allá De Las Drogas. Estudios Psicoanalíticos. Bolívia, Ed. Plural.
SILLITTI, D. La Drogadicción desde el Psicoanálisis; in SILLITTI, D., SINATRA, E. e TARRAB, M. Más Allá De Las Drogas. Estudios Psicoanalíticos. Bolívia, Ed. Plural.
VIGANÓ, C. O Fármaco e a Droga, in Clique. Palavras e Pílulas, A Psicanálise na Era dos Medicamentos. Belo Horizonte, Revista dos Institutos Brasileiros de Psicanálise do Campo Freudiano, n.1, 2002.
[1] Este trabalho foi apresentado nas XIV Jornadas Clínicas da EBP-RJ, O Trabalho da Sessão: “ que se diga...”, em 7 e 8 de novembro de 2003. Na época, o desenvolvimento do trabalho contou com a participação de: Fany Chung Chan e Elaine Polly.
[2] Brousse, M.H. O Inconsciente é a Política. São Paulo: EBP, 2003, p. 56.
[3] Isso significa que estão excluídas dessa periodização desde a tese de Lacan até mais ou menos 1953.
[4] A colocação da obra de Sade no cerne de sua leitura do conceito de pulsão, as referências a Bataille e a Maurice Blanchot manifestam a atualização da leitura de Freud a partir da transgressão.
[5] Há uma maneira clássica de se estabelecer a diferença entre o homem e o animal. Poder-se-ia conceber essa diferença como lingüística, e afirmar que o ser humano, diferentemente do animal, é capaz de oferecer uma resposta simbólica (Cassirer, 1994). A psicanálise e, mais precisamente, o retorno de Freud via Lacan, submete essa diferença clássica às conseqüências da elaboração freudiana do conceito de pulsão.
[6] A logificação, extremamente valorizada pela cibernética, conhece três momentos de expansão, desde sua emergência nos anos 1940. O primeiro assimila a mente a uma máquina lógica. O segundo estende essa assimilação ao cérebro: o cérebro também é uma máquina lógica e, sendo assim, mente e cérebro são a mesma coisa. O terceiro marca a entrada do computador em cena.
[7] No mundo globalizado, significantes como united colors of the world, world music, melting pot manifestam a presença dessa utopia (Henschel de Lima & Alves, 1998).
[8] O programa dos Doze Passos é um exemplo do núcleo em torno do qual se organizam os grupos de mútua-ajuda, da dependência química e do alcoolismo. Ele revela sua organização como nicho no seio do consumo generalizado. Os três primeiros passos servem de amostra: 1. Admissão da impotência frente ao álcool e/ou substância; 2. Crença em um Poder Superior; 3. Submissão da vontade ao Poder Superior (Edwards, 1997).
[9] Havia um debate extenso acerca da responsabilidade moral do indivíduo que comete um ato impulsivo em forma de crime, de tentativa de suicídio. A ingestão de substâncias estaria subordinada ao mesmo debate.
[10] Esse contínuo entre mercado e biologia se explica pelo acontecimento da revolução terapêutica que começou no final dos anos 1950 com a clorpromazina e se expande com a imipramina e as benzodiazepinas (Laurent, 2002; Viganó, 2002).

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