O Diagnóstico no Caso Único e a Teoria do Objeto a

1. Introdução

“Uma vez roubada, usurpada, Libido não sucumbiu na prisão erguida pelo Pai (...). Libido não morreu, mas se fez nuvem, água, manancial, torrente. Eu a vertia – dizia o Pai – no tonel das Danaides; ali estava resguardada. Mas sabemos o que ele não sabia: essa não era uma caixa que pudesse retê-la. Pai, não vês que fujo, que escapo, que precipito o incêndio? Não, o Pai não via que Libido se ia e que, no deserto, mil oásis floresciam. O pai acreditou estar enterrado junto com Libido. E o sujeito acreditou – acreditou que o Pai a tinha, com um abraço, na morte. Durante esse tempo, Libido se metabolizava alegremente sem que ninguém a reconhecesse. E o sujeito era feliz sem o saber”.

O mito elaborado por Miller (2005) exprime com precisão o limite teórico-clínico da teoria do Pai em Lacan: a categoria de gozo impôs tal limite. Neste sentido, o avanço conceitual da teoria do pai a partir, principalmente do final dos anos 60, parece confirmar o caráter problemático das três grandes questões que inauguraram a modernidade a partir do final do século XVIII: o que é possível fazer? O que me é permitido esperar? O que é o homem?.
Em 1964, logo após ter reservado à inexistência um seminário sobre os Nomes-do-Pai, logo após sua excomunhão da IPA, Lacan escreve a fórmula do ateísmo: Deus é inconsciente. Extraída do comentário a respeito do sonho “pai não vês que estou queimando?”, essa fórmula evidencia a versão construída por Freud para o pai na neurose bem como sua extensão para a própria estrutura do inconsciente: um pai mudo, adormecido, que nada sabe, diante do fogo real que invade o corpo inanimado de um filho.
Esse mito traz, ainda, um detalhe a mais: um pai entorpecido pela crença de estar enterrado junto com libido, entorpecido pela visão dos mil oásis que floresciam no deserto. Enquanto isso... libido se metaboliza alegremente, sem que ninguém a reconheça. É possível, então, recolocar o apelo do filho em outros termos: Pai não vês que fujo e precipito o incêndio?
A colocação desses problemas referentes ao declínio da organização dos ideais em torno do pai, referentes à morte de Deus, impuseram uma reordenação geral do pensamento filosófico. De fato, o anúncio da morte de Deus exprime uma crítica ao fundamento – mais precisamente ao Ser como fundamento da ação e da criação humana. O aprofundamento dessa crítica terá como resultado o recuo da metafísica e a ascensão de uma investigação sobre o homem. E podemos localizar – com o fez Foucault, ao comentar a importância de Nietzsche e Marx para a crítica da metafísica no século XIX – a psicanálise no contexto deste movimento crítico de recusa do fundamento, do modelo. Éric Laurent em sua conferência de 16-18 de outubro de 1998, dada na Seção São Paulo mostra a presença desse abalo do modelo, do fundamento, na própria evolução da teoria freudiana: o modelo edipiano que define para o pai um lugar central na constituição do inconsciente na época da primeira tópica e da própria análise do Caso Schreber cede lugar – a partir da análise do Homem dos Lobos - às versões do pai.
De fato, se outrora, combater o significante-mestre da autoridade externa do professor, do padre ou do pai pelo anúncio de sua morte, era inseparável do entusiasmo pela liberdade de produzir por meio do pensamento, a arte e a ciência, em nossos dias a morte do pai evidencia o limite do pensamento frente ao gozo: a debilidade mental se apresenta como a outra face do racionalismo moderno (Lacan, 1969; Miller, 1997; Miller, 2001-2002).
A escandalosa atualidade do trabalho conceitual de Miller reside na relevância concedida a experiência real da pulsão (a > I) : os sintomas contemporâneos rejeitam o diagnóstico da clínica estrutural clássica, orientada pela polarização presença - ausência do Nome-do-Pai. O que conduz a pensar que a morte do Pai, que desde a descoberta freudiana do inconsciente fora o eixo em torno do qual se deduzira a estrutura do sujeito a partir da renúncia às pulsões, torna-se, em nossos dias, um problema. Um real sem lei, resistente a palavra impõe a sua marca. De fato a hegemonia dos atos sobre a palavra – freqüente nas toxicomanias, na anorexia, na bulimia e na hiperatividade da criança – bem como a presença de desligamentos, da pregnância do imaginário, da relação de estranheza com o eu e o corpo, do declínio do sentimento de vida, da presença hegemônica do pai da realidade, evidenciam que o modelo estrutural, orientado pela polarização presença/ausência do Nome-do-Pai, tornou-se para o eixo teoria-clínica, um obstáculo epistemológico.
O presente artigo tem como objetivo investigar a relevância que o conceito de gozo vai assumindo no ensino de Lacan, a partir da elaboração da teoria do objeto a.
A importância de se investigar essa natureza do objeto – própria de uma elaboração cujo marco é o seminário sobre a angústia – reside no que Jacques-Alain Miller (2006) definiu como sendo a decorrência de se pensar em um objeto primeiro em relação a presença do Outro paterno ou materno, de um objeto em sua característica de pedaço de corpo – a saber, uma clínica que leva em conta o corpo do analisante e o encontro com o sexo. A justificatica referente a hipótese de psicose presente em um caso clínico servirá de evidência para ressaltar a importância da teoria do objeto a, como também a relevância da relativização da lógica do significante para a especificidade da arte do diagnóstico no campo freudiano sem reduzir essa arte a disciplina da aplicação genérica das classes.

2. A peste assola o pensamento: O diagnóstico diferencial a partir da causalidade sexual.

A psiquiatria clássica ergueu uma disciplina do diagnóstico sobre o modelo de investigação e tratamento da doença orgânica, tal como fora prescrito pela medicina geral. Em primeiro lugar, tratava-se de observar e descrever exaustivamente as características fenomenológicas das doenças; em segundo lugar, de organizar essa fenomenologia vasta em classes de sintomas; em terceiro lugar, de localizar por meio da técnica do exame, um correlato anátomo-fsiológico para tais sintomas (uma lesão orgânica) e em quarto lugar de determinar um agente patológico externo como causa da lesão .
Essa sistematização do diagnóstico permitiu a construção de uma enciclopédia natural das doenças mentais: uma descrição exaustiva do ser por meio de suas características empíricas e a organização dessas características em classes universais. A presença da neurose histérica impôs, no século XIX, um limite à esse modelo - não somente em função da ausência de um correlato anátomo-fisiológico para seus sintomas, mas principalmente, em função do que Freud definiu como sendo seu elemento causal: a causa pulsional, a experiência do gozo. Dessa forma, testemunhamos a fundação de um método para o tratamento da neurose fundamentado na hipótese da causalidade sexual e situado no interior de uma época marcada pela máxima filosófica da morte do pai. É no marco, portanto, da conjunção entre a causa sexual e a morte do pai, que Freud ergue uma disciplina do diagnóstico diferencial que permite estabelecer para a neurose, a classificação de histeria, obsessão e fobia; e, para a psicose, a distinção entre, de um lado, a paranóia e a parafrenia e, de outro, a mania e a melancolia.
No interior desta investigação diagnóstica, centrada na causa sexual, encontramos no espaço de tempo entre o final do século XIX e o ano de 1909, a construção de uma série de casos clínicos fundamentais: a neurose histérica de Dora, a neurose obsessiva do Homem dos Ratos e a neurose fóbica de Hans. É uma época que Éric Laurent (1999) caracterizou como sendo a de uma clínica psicanalítica ainda decalcada sobre o modelo da psiquiatria krapeliniana. Sendo assim, ainda que rompa com a hipótese da causalidade orgânica, Freud mantém-se fiel a classificação diagnóstica, precisamente porque ancora a hipótese da causalidade sexual no modelo do Ideal e no princípio da adaptação do sintoma à estrutura característico desse modelo. O caso do Homem dos Lobos representa, na obra de Freud, o momento de ruptura com a herança kraepeliniana, já que a condução deste caso possibilitou questionar o modelo do Ideal como princípio a partir do qual se estabelece a hipótese diagnóstica. De fato, a pluralização do pai no caso de Sergei Pankeiev - um pai que goza exigindo o sacrifício (Deus), um pai na condição de objeto de amor (identificação à Cristo e seu sacrifício) e um pai castrado (sintoma da expiração) – recoloca no centro do debate sobre diagnóstico e orientação do tratamento a causa libidinal, o modo de gozo independente do Ideal.
Ao comentar a construção do caso Dora, em seu artigo “O Relato de Caso, Crise e Solução” , Laurent (2003) acentua a estrutura subjacente a construção deste caso. De um lado, a rica fenomenologia da descrição em primeira pessoa dos sonhos, das divisões e sofrimentos de Dora, fruto do traço marcante herdado do romantismo alemão; de outro, a organização desta fenomenologia a partir dos operadores conceituais da primeira tópica freudiana: a libido e seu investimento psíquico por meio do mecanismo de recalcamento. A importância desta posição assumida por Freud é demonstrar a originalidade da clínica analítica e de sua transmissão em relação a psiquiatria kraepelianiana do final do século XIX: a monografia clínica é submetida às exigências do caso único. De fato, de um lado, encontramos um Freud kraepeliniano, dedicado a elaboração da hipótese da causalidade psíquica da histeria, ancorado no diagnóstico diferencial histeria-epilepsia / neurose histérica-loucura; de outro, estamos diante de um Freud que desde Dora até o Homem dos Lobos, desde a neurose histérica até o inclassificável, desde a teoria do inconsciente até a teoria da pulsão de morte, apresenta o eixo diagnóstico-orientação de tratamento a partir do caso único, a partir de um nome de gozo (Miller, 1992): Dora e a mulher dos homens, Hans e o menino dos cavalos, o Homem dos Ratos, Schreber e o homem dos deuses, O homem dos lobos .
No caso específico do Homem dos Lobos, essa temática da construção do caso clínico e da transmissão da psicanálise pelo caso único ganha especial relevância devido ao fato de ser um momento muito próximo à evidência clínica de que a repetição coloca o problema teórico referente a natureza do princípio de prazer e seu status de regulador da quantidade de pulsão no psiquismo. O ano de 1920 - dois anos após a publicação de “História de uma Neurose Infantil” – é o marco de uma reformulação geral da teoria psicanalítica cujo resultado será a construção da teoria da pulsão de morte.
Nesse momento, a temática da construção do caso clínico e da transmissão da psicanálise pelo caso único ganha especial relevância a partir da análise do lugar ocupado pela fobia e pelos sintomas obsessivos na economia psíquica de Sergei Pankiev. No que se refere a fobia, trata-se de uma paralisia aterrorizante, desestabilizadora, diante da imagem onírica dos lobos – o que a destitui de uma função reguladora do gozo e, consequentemente, desangustiante, tal como os cavalos tiveram para Hans (Miller, 2005) . Além disso, os lobos estão revestidos de características específicas e muito precisas, isoladas pelo próprio paciente: estavam sentados na árvore, eram muito brancos, estavam em perfeita quietude e imobilidade, olhavam para ele atentamente . A presença dessas características concede aos lobos um estatuto particular, em contraposição ao estatuto universal que os cavalos assumiram para Hans (este sentia medo de todos os cavalos). A posição aterrorizada de Sergei frente aos lobos, frente a esse representante do pai é correlata ao fracasso do expediente da elaboração secundária, da significantização (“Eles não se mexem, apenas olham, e têm as mais graciosas caudas!” ), utilizada com a finalidade de tornar inofensiva a cena. Tal posição é, então, isolada por Freud (1918[1914]) nos seguintes termos: estava aterrorizado pela possibilidade de ser comido, engolido, pelos lobos. O que indica o próprio estatuto que o Outro possui em sua economia psíquica: um Outro gozador, ao qual ele encontra-se submetido . No que diz respeito aos sintomas obsessivos (antes de se deitar era obrigado a rezar por muito tempo e a fazer,interminavelmente, o sinal da cruz, ou pela tarde a passar por todas as imagens sacras da casa e beijá-las uma por uma), dúvidas e blasfêmias direcionadas respectivamente a pessoa de Cristo (se ele tinha traseiro e defecava) e a Deus (“Deus-suíno”, “cagar em Deus”, “Deus-merda”), estas parecem também estar à serviço dessa posição de submissão ao Outro a ponto de Freud afirma ser o mesmo impulso para Deus, encontrado no caso Schreber . Esse estatuto dos sintomas colocará Freud diante do problema referente ao diagnóstico diferencial que organizava a construção do caso clínico: o pai é destituído de sua função estabilizadora, típica da neurose. A pulsão resiste a essa estabilização e o índice dessa resistência pode ser isolado no olhar devorador, encarnado pelos lobos no sonho de Sergei. Podemos localizar nesse momento a crise do modelo de construção de caso clínico organizado em torno dos operadores conceituais: libido-recalcamento-inconsciente.

3. Do formalismo à lógica encarnada

3.1. O Formalismo
O ensino de Lacan é um esforço no sentido de responder as questões abertas por Freud a partir das dificuldades do tratamento de Sergei Pankiev e da elaboração da teoria da pulsão de morte: quando fazemos diagnóstico em psicanálise, o que afinal fazemos? Como tratar o sintoma na psicanálise?
A colocação desses problemas orienta a localização feita por Laurent dos dois momentos do ensino de Lacan: a elaboração lógica do inconsciente a partir do modelo lingüístico-estrutural e a conseqüente redução do conteúdo representacional a estrutura mínima do significante (S1-S2) e a localização do quantum de pulsão resistente à submissão ao simbólico por meio da teoria do objeto a.
O trabalho desenvolvido por Lacan de conceder ao inconsciente freudiano uma formalização por meio da lógica do significante e do grafo do desejo, com a finalidade de retomar seu caráter literal, que se perdera a partir do momento em que os desdobramentos pós-freudianos submeteram a teoria do inconsciente exclusivamente à referência do recalcado, a teoria da libido às exigências maturacionais ( é o caso, por exemplo, da teoria das fases de organização da libido) e, consequentemente conceberam uma clínica da adaptação do recalcado (falso eu) às exigências da realidade e da libido às exigências do amor Ideal. É essa posição de Lacan que justifica em parte sua excomunhão da IPA. Todavia, essa excomunhão é correlata a presença do próprio formalismo como obstáculo epistemológico, precisamente porque a excomunhão dando-se entre 63 e 64, entre o seminário Os Nomes-do-Pai e Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, é correlata ao momento em que se evidencia a irredutibilidade da pulsão à lógica do significante. Neste sentido, o período do ensino de Lacan, do seminário Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise ao seminário Mais Ainda, é dedicado a uma elaboração teórica que responda ao problema referente ao conceito de pulsão: a teoria do objeto a.

A partir desse núcleo da metáfora paterna, ergue-se uma verdadeira disciplina do diagnóstico diferencial pautada na polaridade presença-ausência da metáfora paterna e, consequentemente, na descontinuidade entre neurose e psicose (Cottet, 1999) . Na relação com o Outro a resposta do sujeito neurótico é o recalcamento pelo NP, e a da psicose, a foraclusão, entendida como déficit da interdição operada pelo NP. De fato, no escrito elaborado simultaneamente ao seminário V e intitulado De Uma Questão Preliminar a Todo Tratamento Possível da Psicose , Lacan elabora a foraclusão do Nome-do-Pai como condição causal da psicose, localizando essa condição causal na fenomenologia das mais variadas formas de exceção – seja o servidor de uma obra de salvação, o virtuoso, ou o representante máximo da fé .
REVER No que se refere a dedução do inconsciente a partir do significante, encontramos no escrito “A Questão Preliminar a todo Tratamento Possível da Psicose” o paradigma da clínica estruturalista: o NP funciona como um designador rígido, tendo o estatuto de um S1 que nomeia o sujeito, que designa seu ser. E se há um ser para o sujeito, nessa época, trata-se do sujeito morto, mortificado pelo significante. A partir daí deriva-se uma disciplina do diagnóstico diferencial localizada na polaridade recalcamento-foraclusão (presença-ausência) do NP e, consequentemente, uma construção do caso balizada pela localização dos sintomas nessas classes: para a neurose, o retorno do sentido sexual recalcado; para a psicose, os sintomas oriundos da ruptura provocada pela ausência do NP. Nesse contexto, a construção do caso clínico reveste-se da característica demonstrativa das propriedades formais do significante e da mortificação do sujeito. É o caso, por exemplo, da relevância dada por Lacan ao desencadeamento da psicose de Schreber frente a ausência de recursos para responder ao chamado do Outro (“quem é esse tal de Dr. Schreber?”, convocação à presidência do senado).

3.2. A Lógica encarnada
A expressão “lógica encarnada” é uma referência direta a apresentação do tema do próximo congresso da AMP, feita por Jacques-Alain Miller, (2006). Ela se aplica ao limite da hegemonia da lógica do significante a partir da emergência do objeto a e, consequentemente, da passagem de um quadro conceitual organizado em torno da lógica do significante para um outro quadro no qual o conceito de gozo ganhará, progressivamente, uma posição hegemônica. Esse abalo da lógica do significante é localizado a partir do seminário 10, no qual Lacan investiga o status da angústia e sua relação com a castração. De fato, o princípio explicativo da angústia de castração é localizado por Lacan, a partir deste seminário, no apagamento da função fálica no ato sexual evidenciando, assim, a presença de um elemento causal que não se esgota na ameaça oriunda do Outro, que não depende de uma referência edipiana na forma de um Outro paterno ou materno, mas que se refere diretamente ao fato biológico do órgão masculino e de seu funcionamento na cópula – fato que, posteriormente, em seu ensino será elaborado por meio da sexuação (Miller, 2005). A localização do princípio da angústia de castração no apagamento do órgão é o marco desta inversão conceitual que possibilitará a extensão da clínica psicanalítica para além da lógica do significante e da economia do desejo. Os operadores clínicos da metáfora paterna e do desejo enigmático da mãe recuam no ponto em que a angústia evidencia a presença de um elemento causal primeiro, não especularizável e não-agalmático, anterior e irredutível a máquina edipiana de domesticação da pulsão. Esse elemento será isolado no seminário 10, por meio da notação objeto a.

No que se refere a versão do pai por meio da metáfora paterna, esta constituiu-se como uma resposta a psicanálise anglo-saxã que combatia a eternização do Pai promovida pelo complexo de édipo e que concebia, assim, a constituição subjetiva a partir da mãe. Nesse sentido, o retorno à Freud devolveu ao pai freudiano sua operatividade clínica demonstrando não só a importância que a mãe dá à palavra do pai, mas principalmente, a relevância do desejo do Pai na constituição do sujeito.
Essa releitura do pai localizar-se-á na primeira etapa do ensino de Lacan, organizada em torno da hegemonia do simbólico. O seminário V, sobre as formações do inconsciente, representa o primeiro momento de retificação das versões da morte do pai em Freud – o parricídio do Complexo de Édipo e o pai da horda de Totem e Tabu – definindo a morte do pai por sua elevação ao estatuto de metáfora, ou seja, ao estatuto de pai simbólico. Dessa forma, o que Lacan denominara de Mais além do Édipo, no contexto desta primeira etapa de seu ensino, consistiria no tratamento do pai pela metáfora, fundamentado no vetor conceitual que vai do mito à estrutura. O seminário V apresenta, assim, a teoria da metáfora paterna, bem como sua localização no interior de uma ordenação da estrutura do Édipo em três tempos: o pai simbólico (o pai como significante, como metáfora), o pai imaginário (mediado pela mãe e concebido pelo sujeito como aquele que o priva de sua mãe) e o pai real (o pai que diz sim). Através desses três tempos, testemunhamos um Lacan que concebe uma teoria do Pai, que está além do Édipo no sentido em que a metáfora paterna funciona como uma dobradiça para o sujeito: é o agente separador, a instância de proibição, aquele que diz não. É também um Lacan ao avesso da premissa moderna de que a morte do pai é condição de possibilidade para a liberdade de agir e pensar: o pai morto, o pai como metáfora é, simultaneamente, aquele que demarca que nem tudo é possível e aquele que diz sim, que deseja, que oferece um horizonte, uma bússola possível, a partir do não. Miller (2002) identifica, nessa teoria, a definição de um tipo de relação entre o sujeito e a linguagem, entre o sujeito e o desejo do Outro, fundamentada na lógica do todo cuja versão pode, assim, ser escrita: é preciso que um não seja para que o todo possa advir; ou ainda, a morte do pai é condição de possibilidade do sujeito e seus atributos.
Entre os anos de 1968 e 1970, Lacan orienta seu trabalho conceitual sobre o pai no sentido de apreender o desejo do analista, o desejo de Freud pela psicanálise, para além da sombra religiosa da morte do pai. De fato, em Radiofonia (1970) , Lacan denuncia o núcleo de religiosidade na elaboração teórica de Freud, ao eternizar o pai através de sua morte e, consequentemente, submeter a economia pulsional à seu regime. Radiofonia matemiza, assim, a posição de Lacan em relação a psicanálise: a psicanálise menos o desejo de Freud de eternizar o pai pelo Édipo; mais a tentativa de elaborar uma resposta ao fato da pulsão ter, em nossa época, assumido a posição de comando. É elucidativo o fato de Lacan retomar Moisés evidenciando que o Pai é uma formação de compromisso, uma montagem frente ao indomesticável da pulsão.
A retomada da discussão clínica do caso Schreber em Apresentação das Memórias de um Doente dos Nervos (1966) - na qual ressalta que a submissão de Schreber em relação a Deus é a submissão ao gozo de Deus (e que o próprio ser de Schreber respalda isso) – marca a progressiva relevância teórica do conceito de gozo, e o abalo da hegemonia do simbólico no interior do qual o gozo é definido como mortificado pela linguagem. O Mais-além do Édipo ganha, aqui, um novo sentido: o sentido preciso de um mais-além da metáfora paterna, de uma passagem do Nome-do-Pai ao múltiplo. É esse novo sentido torna possível entender a estruturação típica dos sintomas, das rupturas de laço social, da pregnância do gozo autista e do empuxo a debilidade mental, que habitam nossos dias (a>I).

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