A IDENTIFICAÇÃO DO PAI E A FORMAÇÃO DO SINTOMA NEURÓTICO NO CASO DO HOMEM DOS RATOS.

A IDENTIFICAÇÃO DO PAI E A FORMAÇÃO DO SINTOMA NEURÓTICO NO CASO DO HOMEM DOS RATOS.

“Se tenho esse desejo de ver uma mulher despida, meu pai deverá faltamente morrer”

Para olhos menos atentos apenas manias excêntricas, mas para Freud um caso clássico de neurose obsessiva se apresenta, quando em analise este homem notoriamente conhecido como homem dos ratos é ouvido, e em seu discurso sua condição se revela. Durante anos de sua vida se fez presente tal quadro, buscarei identificar a figura do pai em sua patologia, como também a formação de seus sintomas.

A figura de seu pai esteve tão presente pra ele que não foi sem surpresa que Freud veio descobrir só depois de um certo tempo de analise com seu paciente que o pai de fato já era morto, e em sua narrativa dos fatos para ele não havia distinção do pai vivo do morto em seus efeitos, pai este que para o paciente era o agente castrador de seus desejos, e nessa ambivalência de amor e ódio, o efeito do olhar do pai sobre ele esteve presente o tempo todo, quando em uma história conhecida no seio de sua família, que contava sobre quando seu pai supostamente se sujeita a um casamento arranjado com uma mulher rica que viria a ser a sua mãe e ao mesmo tempo manteve um caso amoroso com uma mulher pobre. O efeito deste olhar do pai leva o homem dos ratos a uma condição onde ele se sente impelido a repetir tal postura, pois diante de sua amada e idealizada dama ele tem seus mais profundos desejos, e é sob a invasão do olhar do pai que se sentirá castrado da possibilidade de realizá-los, para então poder imitá-lo como um ideal corrompido. Aí estará instituído o conflito obsessivo, o pai que precisa morrer o tempo todo para ele, e esse ciclo se repete.

Seu quadro como neurose obsessiva tem origem tipicamente na infância, onde em tenra idade já sofria de obsessões ligadas ao medo de acontecer algo a duas pessoas importantes pra ele: seu pai e sua dama. Por acreditar que ele seria o responsável por danos causados a eles, como um castigo diante de seus desejos consumados acreditava então ser um criminoso desprezível, gerando uma culpa que o abatia enormemente. E assim um instinto erótico o envolvia, mas ao mesmo tempo em que o envolvia gerava culpa seguida de revolta pelo mesmo instinto erótico que o envolve e sua impossibilidade de consumação sem que haja sanções. O conteúdo dessa culpa é de origem inconsciente, portanto, é relativamente imutável, o qual deve ser buscado, uma autocensura originaria de princípios morais internos, esses pensamentos involuntários constituíam sua doença.

Freud faz uma analogia classificando-o como uma espécie de Balaão às avessas. Para entendermos essa comparação curiosa temos que nos arremeter ao velho testamento da Bíblia, mais precisamente no livro de Números1 que compreende um dos livros do Pentateuco (TORÁ). O livro narra os dias de Moisés liderando o povo de Israel em sua peregrinação rumo a terra prometida2, quando se deparam com a região dos Moabitas. O rei dos Moabitas, Balaque, temendo uma possível invasão por parte dos israelitas, contrata o profeta Balaão para que amaldiçoasse a Israel com uma derrota diante da guerra eminente. Para os Moabitas o profeta Balaão tinha o poder de amaldiçoar ou abençoar através de suas palavras, tal era a firmeza de suas palavras diante de Deus (pai), o que faria toda a diferença no campo de batalha.

Já o homem dos ratos, todas as vezes em que orava a Deus, em especial pedindo que abençoasse seu pai e a dama amada, era invadido no meio de sua prece abençoadora por um NÃO “involuntário”, e isso lhe criava pavor, pois tinha medo de sua benção se transformar em maldição. Em sua lógica confusa preferia muitas vezes fazer uma oração amaldiçoadora (seu pai e a dama) para que, em sendo invadido pelo NÃO novamente, sua maldição se converteria em uma suposta benção. No entanto, sabemos que imperava o conflito do amor e ódio quanto ao pai e a dama, o pai era amado enquanto pai, mas odiado como o grande castrador dos seus desejos mais intensos quanto a sua admirada dama, e também um ódio por ela por despertar nele seus desejos, que para ele seriam o estopim do castigo divino sobre ela e seu pai.

A clareza encontrada no profeta Balaão, seja para se posicionar em relação ao sim ou para o não, é impossível de ser encontrada no neurótico obsessivo, pois o conflito é constante em seus pensamentos, posto que a dúvida neurótica clássica se instala entre o amor e ódio com a mesma intensidade veemente em relação ao mesmo objeto.

Adilson Valentim

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