Psicanálise e Modernidade. Cláudia Henschel de Lima

Quarenta e cinco anos nos separam do marco da teorização do objeto a no ensino de Lacan: o seminário sobre a angústia - ponto de partida para a separação entre o real e o significante, para a pluralização dos objetos a e sua localização na anatomia de um corpo irredutível ao formalismo. Entre este seminário, com suas referências naturalizantes, e o seminário O Avesso da Psicanálise recoberto pelas luvas de Marx, um avanço importante ocorre em seu ensino: trata-se do movimento de transportar o objeto a - até então pluralizado nos diversos pedaços do corpo - para a atualidade histórica através dos quatro discursos. Entre os anos de 1964 e 1969, localizamos no seminário sobre Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise - onde o objeto a é a presença de um vazio que pode ser ocupado por qualquer objeto, sem hierarquia de valor - e em De um Outro a outro, onde avança sobre a homologia entre mais-valia marxista e mais gozar, as bases desta alavancagem conceitual, que será apresentada em O Avesso da Psicanálise. De fato, o seminário 17 representa o momento em que o objeto a pluralizado na anatomia do corpo é transportado para o campo do discurso, ganhando o estatuto de função lógica e convertendo-se em único. Em uma das lições de Um Esforço de Poesia, Miller nos oferece uma imagem singular e difícil dessa alavancagem teórica ao relatar a objeção feita por Althusser à teorização do grande Outro, no sentido de que esta perpetuaria a metafísica: a teorização do grande Outro seria, ainda, uma teorização sobre Deus. Diante desta declaração, Lacan avançaria, progressivamente, na direção de uma teoria sobre o saber fazer com o gozo – inicialmente localizada na perspectiva aberta pelos quatro discursos, sobre o destino assumido pelo gozo em cada giro discursivo que fundamenta a atualidade histórica.
O seminário 17 manifesta esse trabalho conceitual de um Lacan que conjuga a teoria marxista da mais-valia com o aforisma nietszcheano da morte de Deus – só para localizar o giro discursivo que lança o objeto a para o zênite de nossa civilização. Ele explora a risada irônica do capitalista que, em sua defesa dos novos tempos, da nova experiência biológica e social que se instaura entre o corpo e a máquina, entre o gozo e o significante (não mais entre o corpo e a terra), encarna o momento em que ocorre o giro discursivo no discurso do mestre, onde o objeto a contábil ocupará a posição de agente. E a verdade – antes garantida por Deus, ou pelo Outro -, cede seu lugar para o retorno severo do gozo. Sobre as conseqüências dessa ascensão do objeto a é possível afirmar, então, que nos encontramo em uma época em que o avanço do saber científico colonizou a ilha deserta do inconsciente e da sexualidade, convertendo-os nas categorias quantitativas de redes neurais, inconsciente cognitivo e impulso. Todavia, ao contrapormos a direção da pesquisa com roedores, com o conjunto dos autores que discutiram os novos sintomas na Conversação de Arcachon e na Convenção de Antibes , testemunhamos não um apelo panfletário em nome da psicanálise, mas o tratamento rigoroso dos problemas que a época impõe à clínica, isolando o quadro sintomático atual: os desligamentos da pulsão em relação ao Outro, a pregnância do eixo imaginário, a presença maciça do pai da realidade, a falência do sentimento da vida, a experiência de fuga do corpo. Problemas que são referentes ao limite conceitual da lógica do significante e que impõem a mudança de eixo da pesquisa em psicanálise no sentido de sustentar não só a importância da teoria lacaniana do gozo, como também de indicar a fratura no eixo simbólico típica de nossa época. É neste sentido que a produção de pesquisas com roedores aliada à vertente mais higienista da redução de danos corre o risco de ser, ela mesma, um sintoma de época na medida em que apresenta todas as implicações imanentes à civilização do objeto a: a relevância da causalidade quantitativa biopsicossocial, a foraclusão do sujeito em nome da correlação entre processos psíquicos e atividade neural, o elogio do avanço tecnológico do imageamento cerebral que permite verificar tal correlação, e enfim, o esclarecimento da condução clínica por meio da metodologia experimental. Da mesma forma que se atribui à psicanálise uma quota de responsabilidade pelo descentramento do homem em relação a si mesmo e pelo desvelamento do mais-gozar - devido a sua própria difusão -, é possível atribuir à mesma um papel fundamental no levantamento das conseqüências da ascensão do objeto a em nossa civilização. Assim, não se encontra nessa modalidade de pesquisa uma denominação mais formal, mais reduzida de adjetivos do que a denominação lacaniana para o sujeito na civilização do objeto a: a debilidade mental que nos assola hoje é a ponta deste iceberg maior que é o limite do pensamento frente ao gozo (Lacan, 1969; Miller, 1997; Miller, 2001-2002). É essa debilidade mental que encontramos nas adicções, nessa fixação desmedida do gozo em uma substância, correlata à fratura do simbólico, ou ao que Lacan (1975) denominou como sendo a ruptura do matrimônio com o pequeno pipi.
Em nome da presença desse eixo formulado por Lacan para o tratamento das adicções, é possível localizar, para cada caso, o estatuto do recurso à droga e elaborar uma hipótese diagnóstica que, no lugar da bússola cientificista da modificação sináptica dos centros de recompensa localizados no cérebro, possibilite a direção do tratamento. Conceder relevância à experiência do gozo não é uma questão de procedimento, de tomada de decisão entre ser um especialista na correlação entre sinapse e transtorno, por exemplo, ou ser especialista em psicanálise. Trata-se de uma questão clínica, que depende fundamentalmente da ação do psicanalista na cidade: é, de fato, o analista que - desperto do entorpecimento classificatório de redução do recurso a droga a uma alteração sináptica produzida pelo consumo excessivo do objeto – torna possível a colocação de uma pergunta relativa ao lugar da droga no encontro de cada falante com o real. Trata-se, ainda, de uma questão ética de resistência à assepsia do mundo, de resistência à sua conversão em universo do entretenimento, em labirinto para ratos, com suas rodas gigantes e alavancas com pedaços de queijo.
3. A poesia lírica na civilização atual
A cidade de Baudelaire, certamente, não se perpetua mais na nossa cidade. Todavia, vale lembrar de sua Paris do século XIX, no momento em que Miller (2006) ressalta a face segregativa, concentracionista, do entretenimento:

“Não importa o partido a que se pertença (...) é impossível não ficar emocionado com o espetáculo dessa multidão doentia, que traga a poeira das fábricas, inspira partículas de algodão, que se deixa penetrar pelo alvaiade, pelo mercúrio e todos os venenos usados na fabricação de obras-primas... Essa multidão se consome pelas maravilhas, as quais não obstante, a Terra lhe deve. Sente borbulhar em suas veias um sangue púrpura e lança um olhar demorado e carregado de tristeza à luz do Sol e às sombras dos grandes parques. “
Ao final de sua descrição, Baudelaire escreve: modernidade

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Procedimentos no Corpo

Os sintomas neuróticos em O homem dos ratos