Extração do objeto a e constituição da realidade.

Extração do objeto a e constituição da realidade psíquica: pontuações clínicas sobre a psicose.

“Quando fazemos diagnóstico em psicanálise, o que afinal fazemos? Como tratar o sintoma na psicanálise?”
Essa pergunta fora colocada por Jacques-Alain Miller em Comentario del Seminário Inexistente (1992), no qual definira com precisão o recuo, no ensino de Lacan, do Nome-do-Pai como metáfora e a ascensão da teoria do objeto a. Além disso, definira também as coordenadas da clínica analítica a partir deste vetor conceitual. Trata-se de determinar o modo como um sujeito defende-se (ou não) do real por meio do simbólico, de determinar as possíveis invenções que possibilitem a um sujeito evitar os maus encontros com o real.
Essa orientação clínica no sentido de isolar o sujeito como resposta do real, não ignora a originalidade da tese que Freud (1924) elaborara em “A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose” a respeito da constituição do campo da realidade na neurose e na psicose. Trata-se de uma tese referente ao diagnóstico diferencial entre neurose e psicose e que opera uma ruptura epistemológica com a psiquiatria clássica cujo eixo para a distinção era o déficit de realidade na psicose (e não sua constituição). Nesse artigo, Freud define os dois tempos de constituição da realidade para a neurose: no primeiro tempo, o sujeito tende a evitar o real; no segundo tempo, ele decide pelo recalcamento. Freud aplica esses dois tempos à psicose localizando, nesta, uma falha na operação de evitar o real. À essa falha do primeiro tempo, Lacan acrescentará um segundo tempo específico para a psicose: a foraclusão e o retorno no real. A partir do seminário 10, o objeto a será a notação que escreve o tratamento da pulsão pela palavra, do real pelo simbólico, do gozo pelo significante para cada ser falante. Na neurose, o recalcamento é correlato a sua extração e, conseqüentemente, constitui a realidade pelo desinvestimento da pulsão; na psicose, a foraclusão é correlata à falha de sua extração e a invasão do campo da realidade pela pulsão sob a forma do objeto invasor, imperativo, vingativo.
Então, qual é a relação entre o mecanismo de extração do objeto a (seio, fezes, falo, voz e olhar) e a constituição da realidade? E em que sentido tal mecanismo pode ser elucidativo para o diagnóstico e a direção de tratamento na psicose?
“O campo da realidade se sustenta unicamente pela extração do objeto a”. (Lacan, APUD Miller, J. A.). Portanto, o campo da realidade se constitui através dessa distância que a extração proporciona; senão tudo fica aglutinado, o sujeito não mortificado emerge desta distância. A distância do objeto como real é que proporciona o enquadramento da realidade.
Para Freud a psicose se apresenta na perda da realidade, já em Lacan esta questão é mais um problema de constituição da realidade. Jacques Alain Miller25 nos elucida que, para este último, é a extração do objeto a que garante uma moldura para o sujeito, algo que o delimita e o torna criador e criatura, e não somente criatura, objeto-dejeto encontrado em diversos relatos clínicos acerca de pacientes psicóticos. É essa extração que gera o campo da realidade, melhor dizendo, que “sustenta” esse campo (como dito anteriormente); é a não presença do objeto a que permite ao sujeito neurótico colocá-lo no Outro.
O sujeito, pela extração mesma deste objeto, fica sempre faltando, ele falta-a-ser, sempre desejoso desta relação intrincada e extenuante, que é a tentativa de ser completo com o Outro. Mas, apesar de cansativa e as vezes até frustrante, ela mesma faz parte de um sujeito divido enquanto tal e sempre demandante de tal operação; que não chega a ser mortificadora como a experiência psicótica.
Do raciocínio acima podemos nos lembrar da melancolia e sua falta de desejo; o suicídio melancólico como sendo essa identificação com o buraco que está no Outro, e logo se dá essa passagem ao ato que não deixa sujeito, não deixa nada, realmente, para ser interpretado. Cessa-se a cadeia significante.
Não há i(a) sustentado pela função fálica da castração, ou seja, há uma perda do objeto, objeto com o qual há uma identificação (o psicótico é o objeto, é a merda, p. ex.) e no caso da melancolia essa mortal identificação com essa falta que habita o Outro; portanto não resta nada a não ser, se manifestar como esse Nada em si mesmo, se tornando ausência.
Devemos nos lembrar da lição de Lacan26, no Seminário 1, sobre a Verwerfung, a “rejeição”, e sua conseqüência para o sujeito. É aqui nesta rejeição do plano genital que este surge como alucinação. Em outras palavras, a não-extração do objeto a emerge com este excesso de vozes e olhares, como podemos observar no Homem dos Lobos.
“De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. Os lobos eram muito brancos e pareciam-se mais com raposas ou cães pastores, pois tinham caudas grandes, como raposas, e orelhas empinadas, como cães quando prestam atenção a algo. Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei e acordei”27. [Freud, S. 1918].
É na alucinação psicótica que vamos nos deparar com a emergência, no real, desse plano genital. “É a falta do NP neste lugar que, pelo furo que abre no significado, dá inicio à cascata de remanejamento do significante de onde provem o desastre crescente do imaginário”28. [Lacan, J. APUD Bogochvol, A. 2008]
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26 LACAN, J. Introdução e reposta a uma exposição de Jean Hyppolite sobre a Verneinung de Freud. In: Os Escritos Técnicos de Freud. Seminário 1. São Paulo: Jorge Zahar Editor. 1995.
27 FREUD, S. História de uma Neurose Infantil (O Homem dos Lobos). In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XVII. 1ed. Rio de Janeiro: Imago. 1969.
28 BOGOCHVOL, A. A melancolia e os objetos a. Opção Lacaniana n°51. Abril 2008.

Não há Bejahung, realização do plano genital, e isto emerge através da alucinação; não há simbolização.
“(...) o que não é reconhecido faz irrupção na consciência sob a forma de visto”. (Lacan, 1954).
Aqui recorremos ao caso do Homem dos Lobos, mais uma vez, e ao fato de que ele diante do real aterrorizante de ter seu dedinho preso ao corpo só pela pele, e ainda assim nem se quer se reportar à sua Nanya, nos faz inferir que não existe mais este Outro.

Carlos Emmanuel.

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