Os sintomas neuróticos em O homem dos ratos

Laplanche define a neurose obsessiva como “Classe de neuroses definidas por Freud e que constituem um dos principais quadros da clínica psicanalítica. Na forma mais típica, o conflito psíquico exprime-se por sintomas chamados compulsivos*(idéias obsedantes, compulsão a realizar atos indesejáveis, luta contra estes pensamentos e estas tendências, ritos conjuratórios, etc) e por um modo de pensar caracterizado particularmente por ruminação mental,dúvida, escrúpulos, e que leva a inibições do pensamento e da ação”

A partir desta definição, podemos realizar um levantamento de alguns sintomas, típicos, presentes no caso “O Homem dos ratos”. O jovem paciente busca tratamento com a principal queixa de possuir idéias obsessivas que o faziam sentir medo de que algo acontecesse a seu pai ou a dama por quem tinha admiração.

Algumas dessas idéias pareciam conexões falsas como quando era criança, sentia um forte desejo de ver moças despidas. Contudo, com esse desejo, veio o sentimento de que algo teria de acontecer se ele pensasse tais coisas, como por exemplo, que o pai dele poderia morrer. Na mesma época, pensou também que seus pais conheciam seus pensamentos e explicou pra si mesmo que isso se devia ao fato de que talvez os tivesse expressado em voz alta, sem ouvir a si próprio. Logo, se ele pensasse em ver moças despidas, seus pais o ouviriam. Em ambos os exemplos, podemos identificar a presença de um instinto erótico e uma revolta contra ele. Neste momento, um desejo que ainda não era compulsivo e, lutando contra ele, um medo já compulsivo.

Freud observa que o fato de existir uma conexão falsa explica a impotência dos processos psicológicos de combater tais idéias atormentadoras. É quando há uma falha no recalcamento e o próprio aparelho psíquico, dentro da particularidade do indivíduo, traz uma culpa, ou um sentimento repulsivo pelas tais idéias atormentadoras. Freud afirma que há um “pensar obsessivo” e que as estruturas obsessivas podem corresponder a toda sorte de ato psíquico. Elas podem ser classificadas como desejos, tentações, impulsos, reflexões, dúvidas, ordens ou proibições. Os pacientes, geralmente, esforçam-se por amenizar tais distinções e encarar aquilo que resta desses atos psíquicos após terem sido destituídos de seu contexto afetivo simplesmente como “idéias obsessivas”. Durante a luta defensiva secundária que o paciente empreende contra tais idéias revelam-se estruturas psíquicas que parecem não se tratar apenas de considerações levantadas em oposição aos pensamentos obsessivos, elas assumem determinadas premissas da obsessão que combatem e se utilizam das armas da razão se estabelecendo, então, sobre a base do pensamento patológico. A estas estruturas Freud deu o nome de ”delírios”. Um exemplo dessas estruturas se faz presente quando o paciente relata que, certa vez, após estudar até tarde da noite para um exame, ele costumava ir abrir a porta da frente para o fantasma do seu pai, e então olhar para os seus órgãos genitais no espelho. Ele tentava voltar a razão imaginando o que seu pai diria diante disso tudo se ainda estivesse vivo. Porém, o argumento não surtia efeito enquanto desenvolvido dessa forma racional. O espectro só desaparecia quando ele transformava a mesma idéia em uma ameaça delírica de que se voltasse a cometer esse absurdo, alguma coisa maligna aconteceria a seu pai no outro mundo.

Concluindo, um trecho de Freud sobre o homem dos ratos: “Em toda sua vida fora ele, inequivocamente, vítima de um conflito entre amor e ódio, tanto em relação a sua dama como em relação a seu pai. (...) As suas relações com seu pai eram dominadas por idêntica divisão de sentimentos, (...) e seu pai também deve ter dado motivo para hostilidade em sua infância.” (FREUD, 1909, p.238).

Natália F. Rodrigues

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