segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Psicanálise e Modernidade. Cláudia Henschel de LIma

Quarenta e cinco anos nos separam do marco da teorização do objeto a no ensino de Lacan: o seminário sobre a angústia - ponto de partida para a separação entre o real e o significante, para a pluralização dos objetos a e sua localização na anatomia de um corpo irredutível ao formalismo. Entre este seminário, com suas referências naturalizantes, e o seminário O Avesso da Psicanálise recoberto pelas luvas de Marx, um avanço importante ocorre em seu ensino: trata-se do movimento de transportar o objeto a - até então pluralizado nos diversos pedaços do corpo - para a atualidade histórica através dos quatro discursos. Entre os anos de 1964 e 1969, localizamos no seminário sobre Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise - onde o objeto a é a presença de um vazio que pode ser ocupado por qualquer objeto, sem hierarquia de valor - e em De um Outro a outro, onde avança sobre a homologia entre mais-valia marxista e mais gozar, as bases desta alavancagem conceitual, que será apresentada em O Avesso da Psicanálise. De fato, o seminário 17 representa o momento em que o objeto a pluralizado na anatomia do corpo é transportado para o campo do discurso, ganhando o estatuto de função lógica e convertendo-se em único. Em uma das lições de Um Esforço de Poesia, Miller nos oferece uma imagem singular e difícil dessa alavancagem teórica ao relatar a objeção feita por Althusser à teorização do grande Outro, no sentido de que esta perpetuaria a metafísica: a teorização do grande Outro seria, ainda, uma teorização sobre Deus. Diante desta declaração, Lacan avançaria, progressivamente, na direção de uma teoria sobre o saber fazer com o gozo – inicialmente localizada na perspectiva aberta pelos quatro discursos, sobre o destino assumido pelo gozo em cada giro discursivo que fundamenta a atualidade histórica.
O seminário 17 manifesta esse trabalho conceitual de um Lacan que conjuga a teoria marxista da mais-valia com o aforisma nietszcheano da morte de Deus – só para localizar o giro discursivo que lança o objeto a para o zênite de nossa civilização. Ele explora a risada irônica do capitalista que, em sua defesa dos novos tempos, da nova experiência biológica e social que se instaura entre o corpo e a máquina, entre o gozo e o significante (não mais entre o corpo e a terra), encarna o momento em que ocorre o giro discursivo no discurso do mestre, onde o objeto a contábil ocupará a posição de agente. E a verdade – antes garantida por Deus, ou pelo Outro -, cede seu lugar para o retorno severo do gozo. Sobre as conseqüências dessa ascensão do objeto a é possível afirmar, então, que nos encontramo em uma época em que o avanço do saber científico colonizou a ilha deserta do inconsciente e da sexualidade, convertendo-os nas categorias quantitativas de redes neurais, inconsciente cognitivo e impulso. Todavia, ao contrapormos a direção da pesquisa com roedores, com o conjunto dos autores que discutiram os novos sintomas na Conversação de Arcachon e na Convenção de Antibes , testemunhamos não um apelo panfletário em nome da psicanálise, mas o tratamento rigoroso dos problemas que a época impõe à clínica, isolando o quadro sintomático atual: os desligamentos da pulsão em relação ao Outro, a pregnância do eixo imaginário, a presença maciça do pai da realidade, a falência do sentimento da vida, a experiência de fuga do corpo. Problemas que são referentes ao limite conceitual da lógica do significante e que impõem a mudança de eixo da pesquisa em psicanálise no sentido de sustentar não só a importância da teoria lacaniana do gozo, como também de indicar a fratura no eixo simbólico típica de nossa época. É neste sentido que a produção de pesquisas com roedores aliada à vertente mais higienista da redução de danos corre o risco de ser, ela mesma, um sintoma de época na medida em que apresenta todas as implicações imanentes à civilização do objeto a: a relevância da causalidade quantitativa biopsicossocial, a foraclusão do sujeito em nome da correlação entre processos psíquicos e atividade neural, o elogio do avanço tecnológico do imageamento cerebral que permite verificar tal correlação, e enfim, o esclarecimento da condução clínica por meio da metodologia experimental. Da mesma forma que se atribui à psicanálise uma quota de responsabilidade pelo descentramento do homem em relação a si mesmo e pelo desvelamento do mais-gozar - devido a sua própria difusão -, é possível atribuir à mesma um papel fundamental no levantamento das conseqüências da ascensão do objeto a em nossa civilização. Assim, não se encontra nessa modalidade de pesquisa uma denominação mais formal, mais reduzida de adjetivos do que a denominação lacaniana para o sujeito na civilização do objeto a: a debilidade mental que nos assola hoje é a ponta deste iceberg maior que é o limite do pensamento frente ao gozo (Lacan, 1969; Miller, 1997; Miller, 2001-2002). É essa debilidade mental que encontramos nas adicções, nessa fixação desmedida do gozo em uma substância, correlata à fratura do simbólico, ou ao que Lacan (1975) denominou como sendo a ruptura do matrimônio com o pequeno pipi.
Em nome da presença desse eixo formulado por Lacan para o tratamento das adicções, é possível localizar, para cada caso, o estatuto do recurso à droga e elaborar uma hipótese diagnóstica que, no lugar da bússola cientificista da modificação sináptica dos centros de recompensa localizados no cérebro, possibilite a direção do tratamento. Conceder relevância à experiência do gozo não é uma questão de procedimento, de tomada de decisão entre ser um especialista na correlação entre sinapse e transtorno, por exemplo, ou ser especialista em psicanálise. Trata-se de uma questão clínica, que depende fundamentalmente da ação do psicanalista na cidade: é, de fato, o analista que - desperto do entorpecimento classificatório de redução do recurso a droga a uma alteração sináptica produzida pelo consumo excessivo do objeto – torna possível a colocação de uma pergunta relativa ao lugar da droga no encontro de cada falante com o real. Trata-se, ainda, de uma questão ética de resistência à assepsia do mundo, de resistência à sua conversão em universo do entretenimento, em labirinto para ratos, com suas rodas gigantes e alavancas com pedaços de queijo.
3. A poesia lírica na civilização atual
A cidade de Baudelaire, certamente, não se perpetua mais na nossa cidade. Todavia, vale lembrar de sua Paris do século XIX, no momento em que Miller (2006) ressalta a face segregativa, concentracionista, do entretenimento:

“Não importa o partido a que se pertença (...) é impossível não ficar emocionado com o espetáculo dessa multidão doentia, que traga a poeira das fábricas, inspira partículas de algodão, que se deixa penetrar pelo alvaiade, pelo mercúrio e todos os venenos usados na fabricação de obras-primas... Essa multidão se consome pelas maravilhas, as quais não obstante, a Terra lhe deve. Sente borbulhar em suas veias um sangue púrpura e lança um olhar demorado e carregado de tristeza à luz do Sol e às sombras dos grandes parques. “
Ao final de sua descrição, Baudelaire escreve: modernidade

Ethos moderno em Baudelaire. Cláudia Henschel de Lima

(Trecho do artigo sobre psicanálise e literatura na modernidade ainda no prelo).

Um dos traços mais marcantes do século XX foi a elaboração de uma concepção crítica a respeito da contemporaneidade. Cito como exemplo, o pensamento de Martin Heidegger, Hanna Arendt, Michel Foucault e, na psicanálise, de Jacques-Alain Miller.
São pensadores que, no campo filosófico e analítico, abordam a contemporaneidade problematizando sobre a atualidade e o posicionamento assumido pelo intelectual diante das transformações dos saberes e das relações de poder.
No caso específico de Michel Foucault, é importante ressaltar o que ele próprio denominara de ontologia do presente, extensamente analisado em “O que são as Luzes?”.
Nesse artigo, Foucault elabora uma definição precisa da ontologia do presente. Trata-se de conduzir uma “genealogia, não tanto da modernidade, mas da modernidade como questão”, ou seja, é tornar a modernidade um enigma para o pensamento filosófico. Dessa forma, a ontologia do presente se delineia no momento preciso em que se valoriza o posicionamento subjetivo do intelectual frente a época, contrapondo-se a periodizações lineares do tipo modernidade-pós-modernidade.
Com o objetivo de consolidar a ontologia do presente, Foucault recorrerá à resposta de Kant à questão “O que são as Luzes?”, proposto por... e à poesia de Charles Baudelaire.
O posicionamento de Kant, nesta resposta interessa à Foucault na medida em que, ao sustentar a tarefa do filósofo pela máxima sapere aude – tenha a coragem, a audácia de saber - evidencia a relevância do posicionamento ético assumido pelo filósofo na modernidade, para além de uma interrogação referente a cientificidade da ciência típica da analítica da verdade. Mas, para além, também, de uma determinação da modernidade a partir de um calendário de fatos históricos fixos e lineares. Trata-se, aqui, de valorizar a aparição tipicamente moderna de um ethos, de um posicionamento que um filósofo pode individualmente assumir frente ao tempo. No entanto, no processo de consolidação do posicionamento do filósofo, Foucault vai além de Kant. Ele cita a poesia de Baudelaire nessa vertente da ética e do tempo, como expressão de uma das consciências mais críticas da modernidade do século XIX. De fato, a poesia de Baudelaire se refere diretamente à modernidade a partir da experiência subjetiva de uma descontinuidade no tempo - ruptura da tradição, sentimento de novidade, vertigem do tempo que passa – e do modo como o poeta emprega as alegorias da morte, da destruição e degeneração para retratar o objeto central de sua poesia lírica: a cidade de Paris no século XIX.
O posicionamento de Baudelaire não significa uma aceitação incondicional das características de uma época. Significa, antes, assumir uma determinada atitude em relação a esse movimento, mostrando o ponto de impossível existente nela. Tomemos a situação do pintor e do poeta moderno, exposta por Baudelaire no Salão de 1859. O poeta encontra pela rua, os traços que compõem um modo de ser da época e, a partir desse encontro, conduzem uma crítica precisa à esses traços. Tal crítica aparece, por exemplo, na predominância do preto e do cinza no vestuário masculino a partir da Monarquia de Junho. Sobre esse ponto, Benjamin (1985) destaca a seguinte passagem do texto de Baudelaire:
“Entre todos, será chamado de O Pintor aquele que conseguir decantar o lado épico da vida presente e nos ensinar, com linhas e cores, a entender como somos grandes e poéticos em nossos sapatos de verniz e em nossas gravatas. Esperemos que os autênticos pioneiros nos dêem, no próximo ano, o especial prazer de podermos festejar o surgimento de algo realmente Novo”.
Essa dimensão da ontologia do presente parece se realizar, em Baudelaire, no momento em que ele faz da cidade a matéria para compor sua poesia e, principalmente, para erguer através do pintor e do poeta, uma nova atitude para as artes. De fasto, no trecho acima citado, testemunha-se um Baudelaire que espera por um futuro em que o pintor, o verdadeiro pintor saberá arrancar à vida atual a sua componente épica e ambiciona que possam os verdadeiros pesquisadores nos oferecer no próximo ano a alegria singular de celebrar o surgimento do novo!
Nesse movimento de composição da poesia lírica a partir das transformações abruptas da cidade, o personagem do flâneur se destaca. Ele se posiciona com estranhamento diante do favorecimento do capital financeiro e da reestruturação do espaço arquitetônico com a construção dos boulevards. Assim, a especulação da Bolsa e as longas avenidas passam a ocupar, no século XIX, o lugar dos jogos de azar, típicos da sociedade feudal, jogados nas ruas estreitas de uma Paris antiga. O personagem do flâneur retrata precisamente essa transformação no tempo – pela ascensão do mercado de consumo e da quantificação do trabalho - e no espaço, pela arquitetura das avenidas largas: é uma Paris estranha ao parisiense.
Outro momento é o poema “O Cisne”, onde Baudelaire retrata o exílio no interior desta cidade, reconstruída a partir de projeto de reurbanização do Barão Haussmann que, por sua vez, se preocupava com a proliferação das barricadas. Seu projeto arquitetônico incluiu a expansão da largura das avenidas, bem como a abertura de novas avenidas para diminuir o trajeto entre as casernas e os bairros operários. Assim, obedecendo ao eufemismo do embelezamento estratégico, o projeto de Haussmann impôs a desaparição de bairros inteiros; antigos pardieiros cederam lugar à praças amplas, jardins e alamedas, segundo um processo abrupto de modernização que culminaria em uma reformulação radical e completa da cidade. O poema “O Cisne” retrata com precisão este momento.

I
Andrômaca, eu penso em você! Esse pequeno rio,
Pobre e triste espelho onde outrora resplendia
A imensa majestade de suas dores de viúva,
Esse Simeonte mentiroso que aumenta com teu pranto,
Fecundou subitamente minha memória fértil,
Quando eu atravessava o novo Carrossel.
A velha Paris não existe mais (a forma de uma cidade
Muda mais rápido, ah! que o coração de um mortal);
Só em espírito vejo todo esse campo de barracos,
Essas pilhas de capitéis esboçados e de cornijas,
Os gramados, os grandes blocos esverdeados pela água das poças,
E, brilhando no ladrilho, a confusão de quinquilharias.
Lá era exposta outrora uma feira de animais;
Lá eu vi, numa manhã, quando sob o céu
Frio e claro o Trabalho acorda, onde a sujeira
Impele um furacão sombrio no ar silencioso,
Um cisne que escapara de sua jaula,
E, esfregando seus pés espalmados sobre o pavimento seco,
Sob o sol áspero arrastava sua plumagem branca.
Junto a regato sem água, o animal abrindo o bico
Banhava nervosamente suas asas na poeira,
E dizia, com o coração cheio de seu belo lago natal:
"Água, quando cairás? quando soarás, raio?"
Eu vejo esse infeliz, mito estranho e fatal,
Em direção ao céu às vezes, como o homem de Ovídio,
Em direção ao céu irônico e cruelmente belo,
Sobre seu pescoço convulsivo esticando seu rosto ávido,
Como se lançasse uma censura a Deus!
(BAUDELAIRE, 1976a, p. 85-86).

domingo, 25 de outubro de 2009

Os sintomas neuróticos em O homem dos ratos

Laplanche define a neurose obsessiva como “Classe de neuroses definidas por Freud e que constituem um dos principais quadros da clínica psicanalítica. Na forma mais típica, o conflito psíquico exprime-se por sintomas chamados compulsivos*(idéias obsedantes, compulsão a realizar atos indesejáveis, luta contra estes pensamentos e estas tendências, ritos conjuratórios, etc) e por um modo de pensar caracterizado particularmente por ruminação mental,dúvida, escrúpulos, e que leva a inibições do pensamento e da ação”

A partir desta definição, podemos realizar um levantamento de alguns sintomas, típicos, presentes no caso “O Homem dos ratos”. O jovem paciente busca tratamento com a principal queixa de possuir idéias obsessivas que o faziam sentir medo de que algo acontecesse a seu pai ou a dama por quem tinha admiração.

Algumas dessas idéias pareciam conexões falsas como quando era criança, sentia um forte desejo de ver moças despidas. Contudo, com esse desejo, veio o sentimento de que algo teria de acontecer se ele pensasse tais coisas, como por exemplo, que o pai dele poderia morrer. Na mesma época, pensou também que seus pais conheciam seus pensamentos e explicou pra si mesmo que isso se devia ao fato de que talvez os tivesse expressado em voz alta, sem ouvir a si próprio. Logo, se ele pensasse em ver moças despidas, seus pais o ouviriam. Em ambos os exemplos, podemos identificar a presença de um instinto erótico e uma revolta contra ele. Neste momento, um desejo que ainda não era compulsivo e, lutando contra ele, um medo já compulsivo.

Freud observa que o fato de existir uma conexão falsa explica a impotência dos processos psicológicos de combater tais idéias atormentadoras. É quando há uma falha no recalcamento e o próprio aparelho psíquico, dentro da particularidade do indivíduo, traz uma culpa, ou um sentimento repulsivo pelas tais idéias atormentadoras. Freud afirma que há um “pensar obsessivo” e que as estruturas obsessivas podem corresponder a toda sorte de ato psíquico. Elas podem ser classificadas como desejos, tentações, impulsos, reflexões, dúvidas, ordens ou proibições. Os pacientes, geralmente, esforçam-se por amenizar tais distinções e encarar aquilo que resta desses atos psíquicos após terem sido destituídos de seu contexto afetivo simplesmente como “idéias obsessivas”. Durante a luta defensiva secundária que o paciente empreende contra tais idéias revelam-se estruturas psíquicas que parecem não se tratar apenas de considerações levantadas em oposição aos pensamentos obsessivos, elas assumem determinadas premissas da obsessão que combatem e se utilizam das armas da razão se estabelecendo, então, sobre a base do pensamento patológico. A estas estruturas Freud deu o nome de ”delírios”. Um exemplo dessas estruturas se faz presente quando o paciente relata que, certa vez, após estudar até tarde da noite para um exame, ele costumava ir abrir a porta da frente para o fantasma do seu pai, e então olhar para os seus órgãos genitais no espelho. Ele tentava voltar a razão imaginando o que seu pai diria diante disso tudo se ainda estivesse vivo. Porém, o argumento não surtia efeito enquanto desenvolvido dessa forma racional. O espectro só desaparecia quando ele transformava a mesma idéia em uma ameaça delírica de que se voltasse a cometer esse absurdo, alguma coisa maligna aconteceria a seu pai no outro mundo.

Concluindo, um trecho de Freud sobre o homem dos ratos: “Em toda sua vida fora ele, inequivocamente, vítima de um conflito entre amor e ódio, tanto em relação a sua dama como em relação a seu pai. (...) As suas relações com seu pai eram dominadas por idêntica divisão de sentimentos, (...) e seu pai também deve ter dado motivo para hostilidade em sua infância.” (FREUD, 1909, p.238).

Natália F. Rodrigues

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Jornal do Brasil - Sociedade Aberta - Adolescência: o cabo de guerra com as drogas

Jornal do Brasil - Sociedade Aberta - Adolescência: o cabo de guerra com as drogas

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O Anfiteatro de Anatomia de Leiden e a consolidação de uma ciência da vida e de uma anatomia política do corpo

O anfiteatro de anatomia de Leiden, representado pela gravura de W. Swanenburg (1610), é o cenário no qual ocorrerá uma das mais fundamentais rupturas epistemológicas localizadas a partir da passagem do século XVI para o século XVII: a ascensão de um conhecimento científico sobre a vida destituído das formas da semelhança que dominaram o Renascimento e a abertura de uma crise na estruturação do saber ocidental, que culminará no recuo de uma metafísica da vida centrada em Deus. Sua arquitetura é a do teatro no qual se espalham e se misturam a vida e a morte. No centro, encontramos um visitante que, com gesto teatral ergue um lençol e desvela, para o espectador, a tábua de dissecação onde o anatomista exercerá, a partir de então, seu ofício. Sobre a mesa, jaz um corpo sem vida, aberto e trabalhado – indicando o ponto de partida de uma modificação nas formas da visibilidade, que se consolidará definitivamente a partir do século XIX e possibilitará esclarecer a ligação entre o homem e a finitude: percebida a partir da morte, a vida se torna legível, aberta à dissecção soberana da linguagem e do olhar (Foucault, 1998).
Na platéia, a presença viva de homens e mulheres misturam-se à esqueletos de animais e de gente, espalhados pelos degraus e em círculos concêntricos em torno do cadáver. Dos esqueletos pendem, ainda, bandeiras onde se inscrevem sentenças bíblicas sobre a precariedade da vida, escritas em latim - hommo bulla, vita brevis, nascentes morimur - prenunciando a ligação entre a universalidade da linguagem e a precariedade do indivíduo.
Um detalhe chama a atenção do espectador: no centro da gravura encontra-se a árvore da ciência cercada por dois esqueletos – possivelmente representando Adão e Eva e, através deles, o anúncio de uma finitude que se abrirá para a experiência humana, a partir do século XIX (Cavaillés, 1991). É neste sentido que o grande anfiteatro é o marco de uma crise ontológica profunda na história do pensamento que culminará no recuo da metafísica e na elaboração científica sobre a infinitude do universo, e das leis da mecânica e da dinâmica para explicação da natureza. De fato, com tais formulações a noção de um centro, um ponto fixo exterior ao pensamento, a partir do qual se ordenaria o mundo é posta em questão. E com esta, também é posta em questão a própria possibilidade de um ponto fixo ancorar todo o conhecimento verdadeiro e a moral.
No campo epistêmico, as figuras da semelhança, típicas do Renascimento – analogia, simpatia, antipatia, similaridade – recuam e dão lugar ao mecanicismo da ciência moderna. É nesse contexto mecanicista, que a mesa de dissecação, ao centro do Anfiteatro de Leiden, assume o papel central de representar o momento em que a vida ganha o estatuto de objeto de investigação científica, submetido às exigências do símbolo matemático, na mesma medida em que a natureza se submete ao matematismo da física moderna. A fórmula cartesiana do cogito – “penso, logo sou” – que fundamenta o racionalismo científico e escreve a definição do sujeito da ciência, a partir do século XVII, é o outro lado da moeda mecanicista: esvaziamento da natureza com relação às figuras da semelhança, conversão do próprio corpo em objeto exterior ao pensamento, tal como os corpos celestes, lado a lado a ascensão da razão matemática como fundamento dessa nova modalidade de conhecimento, que é a ciência moderna, e que se atualizará como física-matemática (ciência dos corpos celestes), química (ciência da natureza) e fisiologia (ciência da vida). É neste sentido que para os estudantes de Leiden, e para Descartes que freqüentava o Anfiteatro, a doença, a monstruosidade e a própria morte deixam de ser signos da maldição e se convertem em elementos da finitude, formas de funcionamento do corpo.
Se entre os séculos XVII e XVIII, a finitude era a negação do infinito, a partir do século XIX, a finitude passa a ter a potência do positivo sem referência a uma metafísica do infinito na forma de uma instância exterior e reguladora do pensamento. Em sua fase arqueológica, Foucault (1977) se refere diretamente ao ponto em que recua a metafísica e analisa que a cultura só pôde pensar o homem a partir do momento em que ela pôde pensar a finitude a partir de si própria:

“(...) quando os conteúdos empíricos foram desligados da representação e envolveram em si mesmos o princípio de sua existência, então a metafísica do infinito tornou-se inútil; (....)o pensamento moderno se contestará nos seus próprios arranjos metafísicos e mostrará que as reflexões sobre a vida, o trabalho e a linguagem, na medida em que valem como analíticas da finitude, manifestam o fim da metafísica”

Sendo assim, a constituição das ciências humanas, ao longo do século XIX, representa o momento de consolidação do ser do homem pela finitude e, consequentemente, como objeto de saber (Foucault, 1977). No quadro da analítica da finitude, o paradigma biológico (e não a metafísica), estará muito próximo desta disposição antropológica, desta “miséria positiva” (Foucault, 1977) que fundamenta o conjunto das ciências humanas: existência humana no interior do organismo,

“(...) na concha de sua cabeça, na armadura de seus membros e em meio a toda a nervura de sua fisiologia (...)ao nível dos diferentes saberes, a finitude é sempre designada a partir do homem concreto e das formas empíricas que se podem atribuir à sua existência, ao nível arqueológico, que descobre o a priori histórico e geral de cada um dois saberes, o homem moderno (...) só é possível à título de figura da finitude.”

Extração do objeto a e constituição da realidade.

Extração do objeto a e constituição da realidade psíquica: pontuações clínicas sobre a psicose.

“Quando fazemos diagnóstico em psicanálise, o que afinal fazemos? Como tratar o sintoma na psicanálise?”
Essa pergunta fora colocada por Jacques-Alain Miller em Comentario del Seminário Inexistente (1992), no qual definira com precisão o recuo, no ensino de Lacan, do Nome-do-Pai como metáfora e a ascensão da teoria do objeto a. Além disso, definira também as coordenadas da clínica analítica a partir deste vetor conceitual. Trata-se de determinar o modo como um sujeito defende-se (ou não) do real por meio do simbólico, de determinar as possíveis invenções que possibilitem a um sujeito evitar os maus encontros com o real.
Essa orientação clínica no sentido de isolar o sujeito como resposta do real, não ignora a originalidade da tese que Freud (1924) elaborara em “A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose” a respeito da constituição do campo da realidade na neurose e na psicose. Trata-se de uma tese referente ao diagnóstico diferencial entre neurose e psicose e que opera uma ruptura epistemológica com a psiquiatria clássica cujo eixo para a distinção era o déficit de realidade na psicose (e não sua constituição). Nesse artigo, Freud define os dois tempos de constituição da realidade para a neurose: no primeiro tempo, o sujeito tende a evitar o real; no segundo tempo, ele decide pelo recalcamento. Freud aplica esses dois tempos à psicose localizando, nesta, uma falha na operação de evitar o real. À essa falha do primeiro tempo, Lacan acrescentará um segundo tempo específico para a psicose: a foraclusão e o retorno no real. A partir do seminário 10, o objeto a será a notação que escreve o tratamento da pulsão pela palavra, do real pelo simbólico, do gozo pelo significante para cada ser falante. Na neurose, o recalcamento é correlato a sua extração e, conseqüentemente, constitui a realidade pelo desinvestimento da pulsão; na psicose, a foraclusão é correlata à falha de sua extração e a invasão do campo da realidade pela pulsão sob a forma do objeto invasor, imperativo, vingativo.
Então, qual é a relação entre o mecanismo de extração do objeto a (seio, fezes, falo, voz e olhar) e a constituição da realidade? E em que sentido tal mecanismo pode ser elucidativo para o diagnóstico e a direção de tratamento na psicose?
“O campo da realidade se sustenta unicamente pela extração do objeto a”. (Lacan, APUD Miller, J. A.). Portanto, o campo da realidade se constitui através dessa distância que a extração proporciona; senão tudo fica aglutinado, o sujeito não mortificado emerge desta distância. A distância do objeto como real é que proporciona o enquadramento da realidade.
Para Freud a psicose se apresenta na perda da realidade, já em Lacan esta questão é mais um problema de constituição da realidade. Jacques Alain Miller25 nos elucida que, para este último, é a extração do objeto a que garante uma moldura para o sujeito, algo que o delimita e o torna criador e criatura, e não somente criatura, objeto-dejeto encontrado em diversos relatos clínicos acerca de pacientes psicóticos. É essa extração que gera o campo da realidade, melhor dizendo, que “sustenta” esse campo (como dito anteriormente); é a não presença do objeto a que permite ao sujeito neurótico colocá-lo no Outro.
O sujeito, pela extração mesma deste objeto, fica sempre faltando, ele falta-a-ser, sempre desejoso desta relação intrincada e extenuante, que é a tentativa de ser completo com o Outro. Mas, apesar de cansativa e as vezes até frustrante, ela mesma faz parte de um sujeito divido enquanto tal e sempre demandante de tal operação; que não chega a ser mortificadora como a experiência psicótica.
Do raciocínio acima podemos nos lembrar da melancolia e sua falta de desejo; o suicídio melancólico como sendo essa identificação com o buraco que está no Outro, e logo se dá essa passagem ao ato que não deixa sujeito, não deixa nada, realmente, para ser interpretado. Cessa-se a cadeia significante.
Não há i(a) sustentado pela função fálica da castração, ou seja, há uma perda do objeto, objeto com o qual há uma identificação (o psicótico é o objeto, é a merda, p. ex.) e no caso da melancolia essa mortal identificação com essa falta que habita o Outro; portanto não resta nada a não ser, se manifestar como esse Nada em si mesmo, se tornando ausência.
Devemos nos lembrar da lição de Lacan26, no Seminário 1, sobre a Verwerfung, a “rejeição”, e sua conseqüência para o sujeito. É aqui nesta rejeição do plano genital que este surge como alucinação. Em outras palavras, a não-extração do objeto a emerge com este excesso de vozes e olhares, como podemos observar no Homem dos Lobos.
“De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. Os lobos eram muito brancos e pareciam-se mais com raposas ou cães pastores, pois tinham caudas grandes, como raposas, e orelhas empinadas, como cães quando prestam atenção a algo. Com grande terror, evidentemente de ser comido pelos lobos, gritei e acordei”27. [Freud, S. 1918].
É na alucinação psicótica que vamos nos deparar com a emergência, no real, desse plano genital. “É a falta do NP neste lugar que, pelo furo que abre no significado, dá inicio à cascata de remanejamento do significante de onde provem o desastre crescente do imaginário”28. [Lacan, J. APUD Bogochvol, A. 2008]
____________________
26 LACAN, J. Introdução e reposta a uma exposição de Jean Hyppolite sobre a Verneinung de Freud. In: Os Escritos Técnicos de Freud. Seminário 1. São Paulo: Jorge Zahar Editor. 1995.
27 FREUD, S. História de uma Neurose Infantil (O Homem dos Lobos). In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Volume XVII. 1ed. Rio de Janeiro: Imago. 1969.
28 BOGOCHVOL, A. A melancolia e os objetos a. Opção Lacaniana n°51. Abril 2008.

Não há Bejahung, realização do plano genital, e isto emerge através da alucinação; não há simbolização.
“(...) o que não é reconhecido faz irrupção na consciência sob a forma de visto”. (Lacan, 1954).
Aqui recorremos ao caso do Homem dos Lobos, mais uma vez, e ao fato de que ele diante do real aterrorizante de ter seu dedinho preso ao corpo só pela pele, e ainda assim nem se quer se reportar à sua Nanya, nos faz inferir que não existe mais este Outro.

Carlos Emmanuel.

Transcrições de textos freudianos que se reportam ao uso de substâncias psicoativas.

Três transcrições importantes:

1)Carta 55 a Fliess
“O que determina o surgimento de uma psicose (...) é o fato de o abuso sexual ocorrer antes do fim do primeiro estádio intelectual (...). Foi assim que cheguei a essa outra visão. Um de meus pacientes histéricos... levou sua irmã mais velha a uma psicose histérica, que terminou num estado de completa confusão. Agora averigüei qual foi o sedutor dele, um homem de grande capacidade intelectual que, no entanto, tinha tido ataques da mais grave dipsomania a partir dos seus cinqüenta anos. Esses ataques começavam regularmente ou com diarréia ou com catarro e rouquidão (o sistema sexual oral!) – isto é, com a reprodução de suas experiências passivas. (...) A dipsomania surgiu através da intensificação – ou melhor, através da substituição de um determinado impulso pelo impulso sexual correlato. (Provavelmente o mesmo se aplica à mania de jogatina do velho F.)”. (Freud, S. 11 de janeiro de 1897).

2)Carta 79 a Fliess
“Comecei a compreender que a masturbação é o grande hábito, o ‘vício primário’, e que é somente como sucedâneo e substituto dela que outros vícios – álcool, morfina, tabaco, etc. – adquirem existência”. (Freud, S. 22 de dezembro de 1897).

3)A Sexualidade na Etiologia das Neuroses
“Quebrar no paciente o hábito da masturbação é apenas uma das novas tarefas terapêuticas impostas ao medico que leva em conta a etiologia sexual dessa neurose; e parece que precisamente essa tarefa, como a cura de qualquer outro vício, pode ser efetuada em uma instituição sob supervisão médica. (...) a necessidade sexual, uma vez que tenha sido despertada e satisfeita por um longo período, não pode mais ser silenciada; pode apenas ser deslocada por outro caminho. Aliás, o mesmo se aplica a todos os tratamentos para quebrar um vício. Seu sucesso será apenas aparente, na medida em que o médico se contentar em privar seus pacientes da substância narcótica, sem se importar com a fonte da qual brotava sua necessidade imperativa. O ‘habito’ é um mero arranjo de palavras, sem nenhum valor explicativo. Nem todos que têm oportunidade de tomar morfina, cocaína, hidrato de cloral, e assim por diante, por algum tempo, adquirem dessa forma ‘um vício’. Uma pesquisa mais minuciosa mostra usualmente que esses narcóticos pretendem servir – direta ou indiretamente – como substitutivo para uma falta de satisfação sexual (...)”. (Freud, S. 1898).

Carlos Emmanuel.

1918: direção de tratamento em psicanalise, algumas transcrições.


Freud traça um raciocínio acerca da direção de tratamento psicanalítico no tocante a manutenção de uma privação no paciente de forma o tratamento seja bem sucedido.
“Lembrar-se-ão os senhores de que foi uma frustração que tornou o paciente doente, e que seus sintomas servem-lhe de satisfações substitutivas. (...) Cruel como possa parecer, devemos cuidar para que o sofrimento do paciente, (...) não acabe prematuramente. Se devido ao fato de que os sintomas foram afastados e perderam o seu valor, seu sofrimento se atenua, devemos restabelecê-lo alhures, sob a forma de alguma privação apreciável; de outro modo, corremos o perigo de jamais conseguir senão melhoras insignificantes e transitórias”. (Freud, S. 1918).
Tecendo uma critica a Escola Suíça, Freud (1918), vai colocar que tentar fazer do paciente uma cópia do médico é um erro grosseiro e que a Psicanálise não coaduna com tal postura. O paciente não deve ser uma copia dos ideais do médico, mas sim ser livre neste aspecto para possuir seus próprios ideais e filosofias de vida.
“(...) um tipo bastante diferente de atividade torna-se necessário pela apreciação gradativamente crescente de que as várias formas de doenças tratadas por nós não podem ser manipuladas mediante a mesma técnica”.
Daí segue o exemplo dos novos tipos de sintomas: os atos obsessivos e a agorafobia.
Existem dois tipos de agorafobia citados por Freud: o caso brando e o caso grave. “Os pacientes que pertencem ao primeiro tipo sofrem de ansiedade quando vão sozinhos à rua, mas não desistiram ainda de sair desacompanhados por causa disso; os outros protegem-se da ansiedade deixando completamente de sair sozinhos. Com estes últimos, só se obtém êxito quando se consegue induzi-los, por influencia da analise, a comportarem-se como os pacientes fóbicos do primeiro tipo (...). Começa-se, portanto, por moderar a fobia; e apenas quando isso foi conseguido por exigência do médico é que permitem resolver a fobia”.
Com relação aos atos obsessivos graves “uma atitude de espera passiva parece ainda menos indicada. Na verdade, de um modo geral esses casos tendem a um processo ‘assintótico’ de recuperação, a um protraimento interminável do tratamento. (...) Julgo existirem poucas dúvidas de que a técnica correta, aqui, só pode consistir em esperar até que o tratamento em si se torne uma compulsão, e então, com essa contracompulsão, suprimir forçosamente a compulsão da doença”.  
Fica a questão da direção de tratamento em psicanálise, que neste texto de 1918, As Linhas de Progresso..., se torna tão contundente. Esta forma de tratamento não se coaduna a certas espctativas do Estado Alemão, da época, em ter seus "neuróticos de guerra" prontos para outra, falando de forma bem simples. Não se pode devolver para o Estado de maneira tão simples e direta alguém que foi destruido por um experiencia tão catrastrófica quanto a Grande Guerra.
Freud neste texto não se preocupa só com os ditos "novos sintomas" de época como as fobias e as neuroses obsessivas, ele para além de salientar o problema de saúde pública que elas convocam, Freud, ressalta sua preocupação para com "os pobres" e uma certa miséria neurótica. Há de se tomar em conta a necessidade de instituições de carater gratuito para atender esta camada da população que também adoece e de forma crescente. Isto ele aponta em 1918! E ainda, mesmo que sejam necessarias mudanças nas tecnicas aplicadas esta pratica será psicanalise desde que seus "elementos" sejam "aqueles tomados à psicanalise estrita e não tendenciosa".
                                                                                                                                          Carlos Emmanuel

OS INCLASSIFICÁVEIS DA CLÍNICA PSICANALÍTICA: CASOS QUE FOGEM À CLÍNICA DIFERENCIAL NEUROSE x PSICOSE.

INÍCIO: 19 DE OUTUBRO DE 2009.
HORÁRIO: 18:00HS
LOCAL: AVENIDA PADRE ELIAS GORAYEB, 15, SALA 207. TIJUCA. PÓXIMO AO METRÔ DA PRAÇA SAENS PENA.
INSCRIÇÃO: COM FLÁVIA PELO TELEFONE 3439-3365. (11:00HS ÀS 20:00HS).
VALOR: R$100,00 POR MÊS.
COORDENAÇÃO: PROFESSORA CLÁUDIA HENSCHEL DE LIMA.


PÚBLICO-ALVO: ESTUDANTES E PROFISSIONAIS EM PSICOLOGIA, FONOAUDIOLOGIA, ENFERMAGEM APLICADA À SAÚDE MENTAL, PSIQUIATRIA.

TÓPICOS CONTEMPLADOS NO CURSO:
1. A CLÍNICA DIFERENCIAL EM PSICANÁLISE: RECALCAMENTO E FORACLUSÃO (NP - NP0).
2. A SINTOMATOLOGIA NEURÓTICA NA CLÍNICA DIFERENCIAL.
3. A CLÍNICA DA PSICOSE A PARTIR DA FORACLUSÃO DO NOME-DO-PAI.
4. SINTOMAS CONTEMPORÂNEOS E DESREGULAÇÃO DA LIBIDO: TOXICOMANIAS, DEPRESSÃO, ANOREXIA, BULIMIA.
5. PSICOSES ORDINÁRIAS E CLÍNICA CONTEMPORÂNEA.

APRESENTAÇÃO DE CASO CLÍNICO NA SAÚDE MENTAL: PSICOSE E FORACLUSÃO DO NOME-DO-PAI

INÍCIO: 26 DE OUTUBRO DE 2009.
HORÁRIO: 18:00HS.
FREQUÊNCIA: QUINZENAL
VALOR: R$100,00 POR MÊS.
COORDENAÇÃO: PROF. CLÁUDIA HENSCHEL DE LIMA
INSCRIÇÃO: SECRETÁRIA FLÁVIA PELO TELEFONE 3439-3365.
(TURMAS COM 4 PESSOAS)
LOCAL: AVENIDA PADRE ELIAS GORAYEB 15, SALA 207. TIJUCA (PRÓXIMO À ESTAÇÃO DO METRÔ SAENS PENA)

OBJETIVO:
SUPERVISÃO VOLTADA PARA OS IMPASSES DA CLÍNICA CONTEMPORÂNEA, VERIFICADOS NA SAÚDE MENTAL:

TÓPICOS QUE SERÃO COTEMPLADOS NA SUPERVISÃO:

1. CONSTRUÇÃO DE CASO CLÍNICO
2. PSICOSE E FORACLUSÃO: A PRIMEIRA CLÍNICA DE LACAN.
3. FENÔMENOS ELEMENTARES.
4. DIREÇÃO DE TRATAMENTO.

ABERTURA DE NOVA TURMA DE SUPERVISÃO

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

ADOLESCÊNCIA E USO DE DROGAS

Quando falamos em uso de drogas, normalmente associamos ao uso das drogas ilícitas, por exemplo, a maconha e a cocaína. Essa associação se deve ao próprio índice de consumo elevado dessas substâncias. Em 2007, a maconha ocupava o primeiro lugar e a cocaína o quarto lugar, no índice de consumo de substâncias pelos brasileiros.
No entanto, ocupando o segundo e terceiro lugares, encontramos substâncias que podem estar guardadas em um armário ou gaveta de qualquer brasileiro: a acetona e remédios para dormir.
Será que isso quer dizer que o simples fatos de termos tais substâncias em casa, é um motivo suficiente para que um filho as consuma e se torne dependente?Aqui, entra nossa consideração sobre a adolescência.
Não raras vezes, usamos um nome para nos referirmos à essa etapa da vida pela qual todos nós passamos: aborrescência. Com essa palavra, damos nome à esse momento da vida, que mais parece uma crise, onde o adolescente questiona as regras sociais, se comporta com rebeldia frente aos valores transmitidos pelos pais e reivindica pela independência da vida adulta. Muitos pais diante da reivindicação e da rebeldia dos filhos adolescentes, ou cedem completamente ou estabelecem um verdadeiro cabo de guerra com seus filhos. O resultado final para ambas as posições na relação ente pais e filhos é normalmente o desconhecimento do que se passa na esfera íntima da vida de seus filhos. A palavra “aborrescente” acaba por expressar esse desconhecimento, porque se por um lado a adolescência traz a reivindicação e a rebeldia, por outro não raras vezes, nos deparamos com adolescentes que experimentam um dos sentimentos mais preocupantes para nós que trabalhamos com a clínica: a tristeza.
O que acontece no momento em que um sujeito ingressa na adolescência?
A OPS/OMS define a adolescência como um processo no qual se acelera o desenvolvimento cognitivo e a estruturação da personalidade, abrangendo as idades de 10 a 19 anos e divididas em pré-adolescência (10 a 14 anos) e adolescência (15 a 19 anos). Esse longo processo se localiza entre o tempo infantil e a vida adulta e se caracteriza pela transformação puberal, pela maturação dos caracteres sexuais secundários (pelos, crescimento dos seios em meninas, modificação da voz em meninos, etc). Essa maturação modifica a imagem do corpo. E essa modificação não é fácil de ser assimilada. O que chamamos de crise da adolescência se refere, na verdade, à esse momento de reestrutração da personalidade, da vida subjetiva e que vai desde a imagem do corpo até o fato de assumir uma identidade sexual e de fazer uma escolha amorosa de objeto. É o momento em que o que acontecia, até então, somente na fantasia infantil e que se expressava pelas brincadeiras ou cenários de jogos infantis, deve passar a fazer parte da dinâmica adulta de dar pedir, ter e não ter. Vemos que é um momento muito difícil para o ser humano porque o conjunto da fantasia da infância se transforma em identidade sexual e possibilidade de escolha de um parceiro no jogo do amor. Ser rebelde com os pais, questionar regras sociais ou reivindicar independência podem estar associados à tentativas saudáveis do adolescente de inventar um modo de assumir o que há de mais íntimo e delicado na experiência subjetiva de cada ser humano: sua identidade sexual e a defesa de sua escolha amorosa. Rebeldia e reivindicação é o nome que damos ao trabalho adolescente de inventar um modo de fazer valer sua imagem corporal, e sua posição frente ao semelhante, nas relações sociais. Quando fazemos um cabo de guerra com os filhos nesse terreno, acabamos por não ouvir e acolher essas invenções. Mas existem jovens que não têm os instrumentos subjetivos para essa invenção. Então, prolongam a infância ou se bloqueiam diante da primeira aparição de uma atração amorosa. Acabam por se tornar silenciosos, arredios e pouco dispostos ao relacionamento social. Na vida íntima, vivem um sentimento de tristeza, inferioridade ou se sentem diferentes de todos os que os rodeiam. Quando fazemos um cabo de guerra com os filhos nesse terreno cobrando, por exemplo, uma identidade heterossexual, acabamos por nos cegar para a gravidade deste afeto de tristeza que contribui para tornar esse adolescente cada vez mais solitário e sem perspectiva na relação social. A palavra “aborrescente” deve desaparecer de nosso vocabulário com o adolescente. Ela em não oferece instrumentos subjetivos para aquele que não os têm – ao contrário reforça mais e mais seu silêncio, sua tristeza, seu sentimento de inferioridade. Devemos dedicar uma preocupação especial com esses casos: pode ser a ocasião para recorrer à droga como tentativa de anestesiar esse sentimento de tristeza, de tornar o adolescente mais desinibido socialmente e de permitir sua inserção em um grupo social. A droga é um objeto produzido por nossa civilização e que pode estar disponível para qualquer ser humano, na medida em que não se restringe às drogas ilícitas. O recurso às drogas, nesse momento delicado da adolescência, deve ser considerado como o recurso à uma prótese para o adolescente que não possui instrumentos subjetivos para inventar um lugar na relação com o próximo. Aqui, não basta tornar difícil o acesso à medicamentos lícitos que guardamos em um armário ou gaveta. É preciso abrir mão das palavras ofensivas ou expressões de indiferença (“aborrescente”, “isso passa”), suspender por alguns minutos por dia a correria rotineira e disponibilizar-se à uma conversa ou à um abraço, compartilhando com ele esse momento tão delicado da vida de todo ser humano.

Cláudia Henschel de Lima

Consumo de Substâncias Psicoativas no Brasil.

A prevalência do consumo de substâncias psicoativas lícitas, foi recentemente evidenciada tanto por meio dos dados sobre o consumo nacional de substâncias psicoativas dos anos de 2005-2007 - obtidos através da parceria entre a Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD) e o CEBRID – como pelos dois últimos relatórios, publicados pelo Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes (UNODC), em 9 de setembro de 2008 e em junho de 2009..
A reprodução da tabela do CEBRID sobre o consumo de substâncias psicoativas no Brasil (Tabela 1), permite constatar que as drogas lícitas – como é o caso dos benzodiazepínicos e orexígenos – são as mais consumidas no Brasil, ultrapassando o consumo de cocaína, por exemplo, que é o principal alvo da luta antidrogas dos países latino-americanos. A evolução do consumo nas drogas lícitas é confirmada, ainda, pelos dados relativos a produção e consumo de anfetaminas e metanfetaminas, presentes no relatório do UNODC de 2008 e 2009.
Evidencia-se que a prescrição de anfetaminas, na América Latina, supera a média mundial. Nos períodos de 2000 a 2002 e 2004 a 2006, o consumo de estimulantes na América Latina, fabricados legalmente, passou de 7 doses diárias por 1.000 habitantes, para 11 doses diárias (um aumento de 5% no consumo). No caso específico do Brasil, o país é o terceiro maior usuário do mundo, com mais que o dobro de usuários entre 2001 e 2005, saltando de 1.5% para 3.2% nas áreas urbanas. O relatório de 2008, por exemplo, registrou um índice de consumo, para o Brasil, de 10 doses diárias. Já no relatório de 2009, é acentuada a facilidade das prescrições médicas irregulares de anfetaminas.
O conjunto desses dados revela, então, não só o aumento do consumo de cocaína. Mas principalmente a expansão surpreendente do consumo de drogas lícitas (ansiolíticos, orexígenos e estimulantes) para além da linha de consumo terapeuticamente controlada. Um outro fato relevante sobre o consumo de substâncias psicoativas lícitas é o índice de consumo elevado de fluoxetina (LY110141), cujo nome comercial é LY110141.
Sua comercialização começou em 1987 nos Estados Unidos. No Brasil, a substância foi comercializada a partir de 1989. Em 1999, sua comercialização equivalia a 25% do faturamento de 10 bilhões de dólares do laboratório Eli Lilly. Em 2001, mais de 20 milhões de medicamentos antidepressivos eram comercializados no Brasil: 200 mil eram de Prozac. O uso do Prozac responde a tese do desequilíbrio químico e atua sobre os níveis de serotonina que, junto com a dopamina e a noradrenalina são isoladas como as reguladoras das emoções. Sendo assim, o Prozac é classificado como ISRS (inibidor seletivo de reabsorção de serotonina). Entre 1995 e 1999, o laboratório Ely Lilly estende a possibilidade de uso da fluoxetina à criança, desenvolvendo o Prozac líquido com sabor de hortelã. O uso de drogas semelhantes ao Prozac por crianças entre 7 e 12 anos, nos Estados Unidos, aumentou 151% e entre menores de 6 anos 580%. Em 2004, as crianças de 5 anos ou menos, foi o segmento de maior consumo de antidepressivo nos Estados Unidos para o tratamento do mutismo seletivo, caracterizado pelo medo de falar em situações sociais[1].

[1] Dados obtidos em Felicidade na Dose Certa?, in Carta Capital. 23 de maio de 2007. Ano XIII. N.445. pp.8-14.
Um outro fato relevante sobre o consumo de substâncias psicoativas lícitas é o índice de consumo elevado de fluoxetina (LY110141), cujo nome comercial é LY110141.
Sua comercialização começou em 1987 nos Estados Unidos. No Brasil, a substância foi comercializada a partir de 1989. Em 1999, sua comercialização equivalia a 25% do faturamento de 10 bilhões de dólares do laboratório Eli Lilly. Em 2001, mais de 20 milhões de medicamentos antidepressivos eram comercializados no Brasil: 200 mil eram de Prozac. O uso do Prozac responde a tese do desequilíbrio químico e atua sobre os níveis de serotonina que, junto com a dopamina e a noradrenalina são isoladas como as reguladoras das emoções. Sendo assim, o Prozac é classificado como ISRS (inibidor seletivo de reabsorção de serotonina). Entre 1995 e 1999, o laboratório Ely Lilly estende a possibilidade de uso da fluoxetina à criança, desenvolvendo o Prozac líquido com sabor de hortelã. O uso de drogas semelhantes ao Prozac por crianças entre 7 e 12 anos, nos Estados Unidos, aumentou 151% e entre menores de 6 anos 580%. Em 2004, as crianças de 5 anos ou menos, foi o segmento de maior consumo de antidepressivo nos Estados Unidos para o tratamento do mutismo seletivo, caracterizado pelo medo de falar em situações sociais[1].

[1] Dados obtidos em Felicidade na Dose Certa?, in Carta Capital. 23 de maio de 2007. Ano XIII. N.445. pp.8-14.

Cláudia Henschel de Lima

domingo, 24 de maio de 2009

A IDENTIFICAÇÃO DO PAI E A FORMAÇÃO DO SINTOMA NEURÓTICO NO CASO DO HOMEM DOS RATOS.

A IDENTIFICAÇÃO DO PAI E A FORMAÇÃO DO SINTOMA NEURÓTICO NO CASO DO HOMEM DOS RATOS.

“Se tenho esse desejo de ver uma mulher despida, meu pai deverá faltamente morrer”

Para olhos menos atentos apenas manias excêntricas, mas para Freud um caso clássico de neurose obsessiva se apresenta, quando em analise este homem notoriamente conhecido como homem dos ratos é ouvido, e em seu discurso sua condição se revela. Durante anos de sua vida se fez presente tal quadro, buscarei identificar a figura do pai em sua patologia, como também a formação de seus sintomas.

A figura de seu pai esteve tão presente pra ele que não foi sem surpresa que Freud veio descobrir só depois de um certo tempo de analise com seu paciente que o pai de fato já era morto, e em sua narrativa dos fatos para ele não havia distinção do pai vivo do morto em seus efeitos, pai este que para o paciente era o agente castrador de seus desejos, e nessa ambivalência de amor e ódio, o efeito do olhar do pai sobre ele esteve presente o tempo todo, quando em uma história conhecida no seio de sua família, que contava sobre quando seu pai supostamente se sujeita a um casamento arranjado com uma mulher rica que viria a ser a sua mãe e ao mesmo tempo manteve um caso amoroso com uma mulher pobre. O efeito deste olhar do pai leva o homem dos ratos a uma condição onde ele se sente impelido a repetir tal postura, pois diante de sua amada e idealizada dama ele tem seus mais profundos desejos, e é sob a invasão do olhar do pai que se sentirá castrado da possibilidade de realizá-los, para então poder imitá-lo como um ideal corrompido. Aí estará instituído o conflito obsessivo, o pai que precisa morrer o tempo todo para ele, e esse ciclo se repete.

Seu quadro como neurose obsessiva tem origem tipicamente na infância, onde em tenra idade já sofria de obsessões ligadas ao medo de acontecer algo a duas pessoas importantes pra ele: seu pai e sua dama. Por acreditar que ele seria o responsável por danos causados a eles, como um castigo diante de seus desejos consumados acreditava então ser um criminoso desprezível, gerando uma culpa que o abatia enormemente. E assim um instinto erótico o envolvia, mas ao mesmo tempo em que o envolvia gerava culpa seguida de revolta pelo mesmo instinto erótico que o envolve e sua impossibilidade de consumação sem que haja sanções. O conteúdo dessa culpa é de origem inconsciente, portanto, é relativamente imutável, o qual deve ser buscado, uma autocensura originaria de princípios morais internos, esses pensamentos involuntários constituíam sua doença.

Freud faz uma analogia classificando-o como uma espécie de Balaão às avessas. Para entendermos essa comparação curiosa temos que nos arremeter ao velho testamento da Bíblia, mais precisamente no livro de Números1 que compreende um dos livros do Pentateuco (TORÁ). O livro narra os dias de Moisés liderando o povo de Israel em sua peregrinação rumo a terra prometida2, quando se deparam com a região dos Moabitas. O rei dos Moabitas, Balaque, temendo uma possível invasão por parte dos israelitas, contrata o profeta Balaão para que amaldiçoasse a Israel com uma derrota diante da guerra eminente. Para os Moabitas o profeta Balaão tinha o poder de amaldiçoar ou abençoar através de suas palavras, tal era a firmeza de suas palavras diante de Deus (pai), o que faria toda a diferença no campo de batalha.

Já o homem dos ratos, todas as vezes em que orava a Deus, em especial pedindo que abençoasse seu pai e a dama amada, era invadido no meio de sua prece abençoadora por um NÃO “involuntário”, e isso lhe criava pavor, pois tinha medo de sua benção se transformar em maldição. Em sua lógica confusa preferia muitas vezes fazer uma oração amaldiçoadora (seu pai e a dama) para que, em sendo invadido pelo NÃO novamente, sua maldição se converteria em uma suposta benção. No entanto, sabemos que imperava o conflito do amor e ódio quanto ao pai e a dama, o pai era amado enquanto pai, mas odiado como o grande castrador dos seus desejos mais intensos quanto a sua admirada dama, e também um ódio por ela por despertar nele seus desejos, que para ele seriam o estopim do castigo divino sobre ela e seu pai.

A clareza encontrada no profeta Balaão, seja para se posicionar em relação ao sim ou para o não, é impossível de ser encontrada no neurótico obsessivo, pois o conflito é constante em seus pensamentos, posto que a dúvida neurótica clássica se instala entre o amor e ódio com a mesma intensidade veemente em relação ao mesmo objeto.

Adilson Valentim

quarta-feira, 29 de abril de 2009

tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar

NEUROSE E PSICOSE



DESCRIÇÃO DA CENA:

Um seio enorme avança ameaçadoramente por um campo aberto, na direção de nosso herói (Woody allen) que o aguarda, ao chegar perto, o seio começa então a investir contra ele, tentando esmagá-lo, e ao mesmo tempo esguichando seu leite mortal, nosso herói então começa a driblá-lo, em um zigue –zague constante pra não ser atingido, então chega a hora de usar a sua arma secreta, a cruz que ele trazia em seu bolso, sacando-a, ele a mira na direção do grande seio, só que não tem o efeito desejado, ele insiste, mas o seio avança, então... ele o atrai pra uma armadilha, onde escondido atrás de uma cortina há um grande sutiã, e esse finalmente consegue deter o seio.

A cena descrita é do filme Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar, (Everything You Always Wanted to Know About Sex (But Were Afraid to Ask), de Woody Allen, que será usada como pano de fundo para comentarmos dois dos textos de Freud, Neurose E Psicose (1924) e A Perda Da Realidade Na Neurose E Na Psicose (1924), procurando mostrar um comparativo entre essas duas condições do aparelho psíquico.



NEUROSE

CARACTERISTICAS BÁSICAS:

- Resultado do conflito entre o EU e o ID.

- O EU recorre ao RECALQUE e este providencia um sintoma.

- O RECALQUE não é a neurose configurada, mas sim um processo que busca compensar a parte danificada do ID.

- O RECALQUE é seguido do seu posterior fracasso, que constitui a neurose.



No conflito entre o EU e o ID, a neurose, temos forças atuando de formas distintas, onde o ID tenta avançar com toda a sua moção pulsional em direção ao EU, este por sua vez a recusa, negando-se a conduzi-la como resolução motora em direção ao objeto desejado, e esta recusa do Eu quanto a pulsão vem em forma de um mecanismo de defesa, o RECALQUE, porém, a neurose não está estabelecida em virtude deste dispositivo em si.

Isto pode ser ilustrado a partir da cena, anteriormente descrita, em que o seio gigante representa o objeto do desejo que se encontra no mundo externo e, no que depende do ID, ele será colocado frente a frente com a personagem de Woody Allen. Mas a fome do ID não será saciada, pois a personagem está pronta pra se defender e acabar com aquela “ameaça”. A resistência acontece, ele corre, o evita, e tira do seu bolso uma cruz mirando-a para o seio.

Esta cruz carrega todo o significado civilizatório religioso de que Deus morre na pessoa do filho (a figura da morte na cruz), trazendo para esta mesma cruz todo um suposto poder contra todas as pulsões que fazem uma ponte direta do mundo externo com o ID, temos então o RECALQUE em cena, atuando dentro da estrutura psíquica como recurso de defesa contra a pulsão, mas está destinado ao fracasso, e é neste contexto de fracasso do RECALQUE providencia um sintoma que passara ser o intruso contra o EU que segue na luta agora contra o sintoma e este conflito resultara finamente em um quadro de neurose estabelecida.



PSICOSE

CARACTERISTICAS BASICAS:

- Resultado da perturbação nas relações que o Eu mantém com o mundo externo

- O mundo externo é DEMOLIDO devido aos duros impedimentos que a realidade impõe a satisfação do desejo- algo intolerável pra o psicótico.

- Um novo mundo interno é erguido segundo os desejos do ID.



Há uma onipotência presente no quadro da psicose, onde o sujeito não toma conhecimento do mundo externo, e se por acaso toma, este não o afeta, e no uso desta onipotência, um novo mundo é erguido segundo os desejos do ID, todo o mundo externo é demolido em virtude das privações que este proporciona quanto a satisfação dos desejos, ou seja, destruindo o mundo externo se destrói os impedimentos, pois para o psicótico, tais impedimentos são intoleráveis.

Se fosse possível fazer a cena acima citada na perspectiva da psicose, seria completamente diferente, certamente o seio o engoliria, o absorveria por completo, por não haver nada que os separasse, pois a cruz e sua tentativa não estariam presentes com o seu simbolismo ( foraclusão do nome do pai), e o personagem de Woody Allen e o seio seriam um só, fora da realidade do mundo externo já demolido, realidade que não é só perdida, mas também substituída.


ADILSON VALENTIM



BIBLIOGRAFIA:

FREUD, S. Neurose e psicose. (1924)

FREUD, S. Aperda da realidade na Neurose e Psicose (1924)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

O Diagnóstico no Caso Único e a Teoria do Objeto a

1. Introdução

“Uma vez roubada, usurpada, Libido não sucumbiu na prisão erguida pelo Pai (...). Libido não morreu, mas se fez nuvem, água, manancial, torrente. Eu a vertia – dizia o Pai – no tonel das Danaides; ali estava resguardada. Mas sabemos o que ele não sabia: essa não era uma caixa que pudesse retê-la. Pai, não vês que fujo, que escapo, que precipito o incêndio? Não, o Pai não via que Libido se ia e que, no deserto, mil oásis floresciam. O pai acreditou estar enterrado junto com Libido. E o sujeito acreditou – acreditou que o Pai a tinha, com um abraço, na morte. Durante esse tempo, Libido se metabolizava alegremente sem que ninguém a reconhecesse. E o sujeito era feliz sem o saber”.

O mito elaborado por Miller (2005) exprime com precisão o limite teórico-clínico da teoria do Pai em Lacan: a categoria de gozo impôs tal limite. Neste sentido, o avanço conceitual da teoria do pai a partir, principalmente do final dos anos 60, parece confirmar o caráter problemático das três grandes questões que inauguraram a modernidade a partir do final do século XVIII: o que é possível fazer? O que me é permitido esperar? O que é o homem?.
Em 1964, logo após ter reservado à inexistência um seminário sobre os Nomes-do-Pai, logo após sua excomunhão da IPA, Lacan escreve a fórmula do ateísmo: Deus é inconsciente. Extraída do comentário a respeito do sonho “pai não vês que estou queimando?”, essa fórmula evidencia a versão construída por Freud para o pai na neurose bem como sua extensão para a própria estrutura do inconsciente: um pai mudo, adormecido, que nada sabe, diante do fogo real que invade o corpo inanimado de um filho.
Esse mito traz, ainda, um detalhe a mais: um pai entorpecido pela crença de estar enterrado junto com libido, entorpecido pela visão dos mil oásis que floresciam no deserto. Enquanto isso... libido se metaboliza alegremente, sem que ninguém a reconheça. É possível, então, recolocar o apelo do filho em outros termos: Pai não vês que fujo e precipito o incêndio?
A colocação desses problemas referentes ao declínio da organização dos ideais em torno do pai, referentes à morte de Deus, impuseram uma reordenação geral do pensamento filosófico. De fato, o anúncio da morte de Deus exprime uma crítica ao fundamento – mais precisamente ao Ser como fundamento da ação e da criação humana. O aprofundamento dessa crítica terá como resultado o recuo da metafísica e a ascensão de uma investigação sobre o homem. E podemos localizar – com o fez Foucault, ao comentar a importância de Nietzsche e Marx para a crítica da metafísica no século XIX – a psicanálise no contexto deste movimento crítico de recusa do fundamento, do modelo. Éric Laurent em sua conferência de 16-18 de outubro de 1998, dada na Seção São Paulo mostra a presença desse abalo do modelo, do fundamento, na própria evolução da teoria freudiana: o modelo edipiano que define para o pai um lugar central na constituição do inconsciente na época da primeira tópica e da própria análise do Caso Schreber cede lugar – a partir da análise do Homem dos Lobos - às versões do pai.
De fato, se outrora, combater o significante-mestre da autoridade externa do professor, do padre ou do pai pelo anúncio de sua morte, era inseparável do entusiasmo pela liberdade de produzir por meio do pensamento, a arte e a ciência, em nossos dias a morte do pai evidencia o limite do pensamento frente ao gozo: a debilidade mental se apresenta como a outra face do racionalismo moderno (Lacan, 1969; Miller, 1997; Miller, 2001-2002).
A escandalosa atualidade do trabalho conceitual de Miller reside na relevância concedida a experiência real da pulsão (a > I) : os sintomas contemporâneos rejeitam o diagnóstico da clínica estrutural clássica, orientada pela polarização presença - ausência do Nome-do-Pai. O que conduz a pensar que a morte do Pai, que desde a descoberta freudiana do inconsciente fora o eixo em torno do qual se deduzira a estrutura do sujeito a partir da renúncia às pulsões, torna-se, em nossos dias, um problema. Um real sem lei, resistente a palavra impõe a sua marca. De fato a hegemonia dos atos sobre a palavra – freqüente nas toxicomanias, na anorexia, na bulimia e na hiperatividade da criança – bem como a presença de desligamentos, da pregnância do imaginário, da relação de estranheza com o eu e o corpo, do declínio do sentimento de vida, da presença hegemônica do pai da realidade, evidenciam que o modelo estrutural, orientado pela polarização presença/ausência do Nome-do-Pai, tornou-se para o eixo teoria-clínica, um obstáculo epistemológico.
O presente artigo tem como objetivo investigar a relevância que o conceito de gozo vai assumindo no ensino de Lacan, a partir da elaboração da teoria do objeto a.
A importância de se investigar essa natureza do objeto – própria de uma elaboração cujo marco é o seminário sobre a angústia – reside no que Jacques-Alain Miller (2006) definiu como sendo a decorrência de se pensar em um objeto primeiro em relação a presença do Outro paterno ou materno, de um objeto em sua característica de pedaço de corpo – a saber, uma clínica que leva em conta o corpo do analisante e o encontro com o sexo. A justificatica referente a hipótese de psicose presente em um caso clínico servirá de evidência para ressaltar a importância da teoria do objeto a, como também a relevância da relativização da lógica do significante para a especificidade da arte do diagnóstico no campo freudiano sem reduzir essa arte a disciplina da aplicação genérica das classes.

2. A peste assola o pensamento: O diagnóstico diferencial a partir da causalidade sexual.

A psiquiatria clássica ergueu uma disciplina do diagnóstico sobre o modelo de investigação e tratamento da doença orgânica, tal como fora prescrito pela medicina geral. Em primeiro lugar, tratava-se de observar e descrever exaustivamente as características fenomenológicas das doenças; em segundo lugar, de organizar essa fenomenologia vasta em classes de sintomas; em terceiro lugar, de localizar por meio da técnica do exame, um correlato anátomo-fsiológico para tais sintomas (uma lesão orgânica) e em quarto lugar de determinar um agente patológico externo como causa da lesão .
Essa sistematização do diagnóstico permitiu a construção de uma enciclopédia natural das doenças mentais: uma descrição exaustiva do ser por meio de suas características empíricas e a organização dessas características em classes universais. A presença da neurose histérica impôs, no século XIX, um limite à esse modelo - não somente em função da ausência de um correlato anátomo-fisiológico para seus sintomas, mas principalmente, em função do que Freud definiu como sendo seu elemento causal: a causa pulsional, a experiência do gozo. Dessa forma, testemunhamos a fundação de um método para o tratamento da neurose fundamentado na hipótese da causalidade sexual e situado no interior de uma época marcada pela máxima filosófica da morte do pai. É no marco, portanto, da conjunção entre a causa sexual e a morte do pai, que Freud ergue uma disciplina do diagnóstico diferencial que permite estabelecer para a neurose, a classificação de histeria, obsessão e fobia; e, para a psicose, a distinção entre, de um lado, a paranóia e a parafrenia e, de outro, a mania e a melancolia.
No interior desta investigação diagnóstica, centrada na causa sexual, encontramos no espaço de tempo entre o final do século XIX e o ano de 1909, a construção de uma série de casos clínicos fundamentais: a neurose histérica de Dora, a neurose obsessiva do Homem dos Ratos e a neurose fóbica de Hans. É uma época que Éric Laurent (1999) caracterizou como sendo a de uma clínica psicanalítica ainda decalcada sobre o modelo da psiquiatria krapeliniana. Sendo assim, ainda que rompa com a hipótese da causalidade orgânica, Freud mantém-se fiel a classificação diagnóstica, precisamente porque ancora a hipótese da causalidade sexual no modelo do Ideal e no princípio da adaptação do sintoma à estrutura característico desse modelo. O caso do Homem dos Lobos representa, na obra de Freud, o momento de ruptura com a herança kraepeliniana, já que a condução deste caso possibilitou questionar o modelo do Ideal como princípio a partir do qual se estabelece a hipótese diagnóstica. De fato, a pluralização do pai no caso de Sergei Pankeiev - um pai que goza exigindo o sacrifício (Deus), um pai na condição de objeto de amor (identificação à Cristo e seu sacrifício) e um pai castrado (sintoma da expiração) – recoloca no centro do debate sobre diagnóstico e orientação do tratamento a causa libidinal, o modo de gozo independente do Ideal.
Ao comentar a construção do caso Dora, em seu artigo “O Relato de Caso, Crise e Solução” , Laurent (2003) acentua a estrutura subjacente a construção deste caso. De um lado, a rica fenomenologia da descrição em primeira pessoa dos sonhos, das divisões e sofrimentos de Dora, fruto do traço marcante herdado do romantismo alemão; de outro, a organização desta fenomenologia a partir dos operadores conceituais da primeira tópica freudiana: a libido e seu investimento psíquico por meio do mecanismo de recalcamento. A importância desta posição assumida por Freud é demonstrar a originalidade da clínica analítica e de sua transmissão em relação a psiquiatria kraepelianiana do final do século XIX: a monografia clínica é submetida às exigências do caso único. De fato, de um lado, encontramos um Freud kraepeliniano, dedicado a elaboração da hipótese da causalidade psíquica da histeria, ancorado no diagnóstico diferencial histeria-epilepsia / neurose histérica-loucura; de outro, estamos diante de um Freud que desde Dora até o Homem dos Lobos, desde a neurose histérica até o inclassificável, desde a teoria do inconsciente até a teoria da pulsão de morte, apresenta o eixo diagnóstico-orientação de tratamento a partir do caso único, a partir de um nome de gozo (Miller, 1992): Dora e a mulher dos homens, Hans e o menino dos cavalos, o Homem dos Ratos, Schreber e o homem dos deuses, O homem dos lobos .
No caso específico do Homem dos Lobos, essa temática da construção do caso clínico e da transmissão da psicanálise pelo caso único ganha especial relevância devido ao fato de ser um momento muito próximo à evidência clínica de que a repetição coloca o problema teórico referente a natureza do princípio de prazer e seu status de regulador da quantidade de pulsão no psiquismo. O ano de 1920 - dois anos após a publicação de “História de uma Neurose Infantil” – é o marco de uma reformulação geral da teoria psicanalítica cujo resultado será a construção da teoria da pulsão de morte.
Nesse momento, a temática da construção do caso clínico e da transmissão da psicanálise pelo caso único ganha especial relevância a partir da análise do lugar ocupado pela fobia e pelos sintomas obsessivos na economia psíquica de Sergei Pankiev. No que se refere a fobia, trata-se de uma paralisia aterrorizante, desestabilizadora, diante da imagem onírica dos lobos – o que a destitui de uma função reguladora do gozo e, consequentemente, desangustiante, tal como os cavalos tiveram para Hans (Miller, 2005) . Além disso, os lobos estão revestidos de características específicas e muito precisas, isoladas pelo próprio paciente: estavam sentados na árvore, eram muito brancos, estavam em perfeita quietude e imobilidade, olhavam para ele atentamente . A presença dessas características concede aos lobos um estatuto particular, em contraposição ao estatuto universal que os cavalos assumiram para Hans (este sentia medo de todos os cavalos). A posição aterrorizada de Sergei frente aos lobos, frente a esse representante do pai é correlata ao fracasso do expediente da elaboração secundária, da significantização (“Eles não se mexem, apenas olham, e têm as mais graciosas caudas!” ), utilizada com a finalidade de tornar inofensiva a cena. Tal posição é, então, isolada por Freud (1918[1914]) nos seguintes termos: estava aterrorizado pela possibilidade de ser comido, engolido, pelos lobos. O que indica o próprio estatuto que o Outro possui em sua economia psíquica: um Outro gozador, ao qual ele encontra-se submetido . No que diz respeito aos sintomas obsessivos (antes de se deitar era obrigado a rezar por muito tempo e a fazer,interminavelmente, o sinal da cruz, ou pela tarde a passar por todas as imagens sacras da casa e beijá-las uma por uma), dúvidas e blasfêmias direcionadas respectivamente a pessoa de Cristo (se ele tinha traseiro e defecava) e a Deus (“Deus-suíno”, “cagar em Deus”, “Deus-merda”), estas parecem também estar à serviço dessa posição de submissão ao Outro a ponto de Freud afirma ser o mesmo impulso para Deus, encontrado no caso Schreber . Esse estatuto dos sintomas colocará Freud diante do problema referente ao diagnóstico diferencial que organizava a construção do caso clínico: o pai é destituído de sua função estabilizadora, típica da neurose. A pulsão resiste a essa estabilização e o índice dessa resistência pode ser isolado no olhar devorador, encarnado pelos lobos no sonho de Sergei. Podemos localizar nesse momento a crise do modelo de construção de caso clínico organizado em torno dos operadores conceituais: libido-recalcamento-inconsciente.

3. Do formalismo à lógica encarnada

3.1. O Formalismo
O ensino de Lacan é um esforço no sentido de responder as questões abertas por Freud a partir das dificuldades do tratamento de Sergei Pankiev e da elaboração da teoria da pulsão de morte: quando fazemos diagnóstico em psicanálise, o que afinal fazemos? Como tratar o sintoma na psicanálise?
A colocação desses problemas orienta a localização feita por Laurent dos dois momentos do ensino de Lacan: a elaboração lógica do inconsciente a partir do modelo lingüístico-estrutural e a conseqüente redução do conteúdo representacional a estrutura mínima do significante (S1-S2) e a localização do quantum de pulsão resistente à submissão ao simbólico por meio da teoria do objeto a.
O trabalho desenvolvido por Lacan de conceder ao inconsciente freudiano uma formalização por meio da lógica do significante e do grafo do desejo, com a finalidade de retomar seu caráter literal, que se perdera a partir do momento em que os desdobramentos pós-freudianos submeteram a teoria do inconsciente exclusivamente à referência do recalcado, a teoria da libido às exigências maturacionais ( é o caso, por exemplo, da teoria das fases de organização da libido) e, consequentemente conceberam uma clínica da adaptação do recalcado (falso eu) às exigências da realidade e da libido às exigências do amor Ideal. É essa posição de Lacan que justifica em parte sua excomunhão da IPA. Todavia, essa excomunhão é correlata a presença do próprio formalismo como obstáculo epistemológico, precisamente porque a excomunhão dando-se entre 63 e 64, entre o seminário Os Nomes-do-Pai e Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, é correlata ao momento em que se evidencia a irredutibilidade da pulsão à lógica do significante. Neste sentido, o período do ensino de Lacan, do seminário Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise ao seminário Mais Ainda, é dedicado a uma elaboração teórica que responda ao problema referente ao conceito de pulsão: a teoria do objeto a.

A partir desse núcleo da metáfora paterna, ergue-se uma verdadeira disciplina do diagnóstico diferencial pautada na polaridade presença-ausência da metáfora paterna e, consequentemente, na descontinuidade entre neurose e psicose (Cottet, 1999) . Na relação com o Outro a resposta do sujeito neurótico é o recalcamento pelo NP, e a da psicose, a foraclusão, entendida como déficit da interdição operada pelo NP. De fato, no escrito elaborado simultaneamente ao seminário V e intitulado De Uma Questão Preliminar a Todo Tratamento Possível da Psicose , Lacan elabora a foraclusão do Nome-do-Pai como condição causal da psicose, localizando essa condição causal na fenomenologia das mais variadas formas de exceção – seja o servidor de uma obra de salvação, o virtuoso, ou o representante máximo da fé .
REVER No que se refere a dedução do inconsciente a partir do significante, encontramos no escrito “A Questão Preliminar a todo Tratamento Possível da Psicose” o paradigma da clínica estruturalista: o NP funciona como um designador rígido, tendo o estatuto de um S1 que nomeia o sujeito, que designa seu ser. E se há um ser para o sujeito, nessa época, trata-se do sujeito morto, mortificado pelo significante. A partir daí deriva-se uma disciplina do diagnóstico diferencial localizada na polaridade recalcamento-foraclusão (presença-ausência) do NP e, consequentemente, uma construção do caso balizada pela localização dos sintomas nessas classes: para a neurose, o retorno do sentido sexual recalcado; para a psicose, os sintomas oriundos da ruptura provocada pela ausência do NP. Nesse contexto, a construção do caso clínico reveste-se da característica demonstrativa das propriedades formais do significante e da mortificação do sujeito. É o caso, por exemplo, da relevância dada por Lacan ao desencadeamento da psicose de Schreber frente a ausência de recursos para responder ao chamado do Outro (“quem é esse tal de Dr. Schreber?”, convocação à presidência do senado).

3.2. A Lógica encarnada
A expressão “lógica encarnada” é uma referência direta a apresentação do tema do próximo congresso da AMP, feita por Jacques-Alain Miller, (2006). Ela se aplica ao limite da hegemonia da lógica do significante a partir da emergência do objeto a e, consequentemente, da passagem de um quadro conceitual organizado em torno da lógica do significante para um outro quadro no qual o conceito de gozo ganhará, progressivamente, uma posição hegemônica. Esse abalo da lógica do significante é localizado a partir do seminário 10, no qual Lacan investiga o status da angústia e sua relação com a castração. De fato, o princípio explicativo da angústia de castração é localizado por Lacan, a partir deste seminário, no apagamento da função fálica no ato sexual evidenciando, assim, a presença de um elemento causal que não se esgota na ameaça oriunda do Outro, que não depende de uma referência edipiana na forma de um Outro paterno ou materno, mas que se refere diretamente ao fato biológico do órgão masculino e de seu funcionamento na cópula – fato que, posteriormente, em seu ensino será elaborado por meio da sexuação (Miller, 2005). A localização do princípio da angústia de castração no apagamento do órgão é o marco desta inversão conceitual que possibilitará a extensão da clínica psicanalítica para além da lógica do significante e da economia do desejo. Os operadores clínicos da metáfora paterna e do desejo enigmático da mãe recuam no ponto em que a angústia evidencia a presença de um elemento causal primeiro, não especularizável e não-agalmático, anterior e irredutível a máquina edipiana de domesticação da pulsão. Esse elemento será isolado no seminário 10, por meio da notação objeto a.

No que se refere a versão do pai por meio da metáfora paterna, esta constituiu-se como uma resposta a psicanálise anglo-saxã que combatia a eternização do Pai promovida pelo complexo de édipo e que concebia, assim, a constituição subjetiva a partir da mãe. Nesse sentido, o retorno à Freud devolveu ao pai freudiano sua operatividade clínica demonstrando não só a importância que a mãe dá à palavra do pai, mas principalmente, a relevância do desejo do Pai na constituição do sujeito.
Essa releitura do pai localizar-se-á na primeira etapa do ensino de Lacan, organizada em torno da hegemonia do simbólico. O seminário V, sobre as formações do inconsciente, representa o primeiro momento de retificação das versões da morte do pai em Freud – o parricídio do Complexo de Édipo e o pai da horda de Totem e Tabu – definindo a morte do pai por sua elevação ao estatuto de metáfora, ou seja, ao estatuto de pai simbólico. Dessa forma, o que Lacan denominara de Mais além do Édipo, no contexto desta primeira etapa de seu ensino, consistiria no tratamento do pai pela metáfora, fundamentado no vetor conceitual que vai do mito à estrutura. O seminário V apresenta, assim, a teoria da metáfora paterna, bem como sua localização no interior de uma ordenação da estrutura do Édipo em três tempos: o pai simbólico (o pai como significante, como metáfora), o pai imaginário (mediado pela mãe e concebido pelo sujeito como aquele que o priva de sua mãe) e o pai real (o pai que diz sim). Através desses três tempos, testemunhamos um Lacan que concebe uma teoria do Pai, que está além do Édipo no sentido em que a metáfora paterna funciona como uma dobradiça para o sujeito: é o agente separador, a instância de proibição, aquele que diz não. É também um Lacan ao avesso da premissa moderna de que a morte do pai é condição de possibilidade para a liberdade de agir e pensar: o pai morto, o pai como metáfora é, simultaneamente, aquele que demarca que nem tudo é possível e aquele que diz sim, que deseja, que oferece um horizonte, uma bússola possível, a partir do não. Miller (2002) identifica, nessa teoria, a definição de um tipo de relação entre o sujeito e a linguagem, entre o sujeito e o desejo do Outro, fundamentada na lógica do todo cuja versão pode, assim, ser escrita: é preciso que um não seja para que o todo possa advir; ou ainda, a morte do pai é condição de possibilidade do sujeito e seus atributos.
Entre os anos de 1968 e 1970, Lacan orienta seu trabalho conceitual sobre o pai no sentido de apreender o desejo do analista, o desejo de Freud pela psicanálise, para além da sombra religiosa da morte do pai. De fato, em Radiofonia (1970) , Lacan denuncia o núcleo de religiosidade na elaboração teórica de Freud, ao eternizar o pai através de sua morte e, consequentemente, submeter a economia pulsional à seu regime. Radiofonia matemiza, assim, a posição de Lacan em relação a psicanálise: a psicanálise menos o desejo de Freud de eternizar o pai pelo Édipo; mais a tentativa de elaborar uma resposta ao fato da pulsão ter, em nossa época, assumido a posição de comando. É elucidativo o fato de Lacan retomar Moisés evidenciando que o Pai é uma formação de compromisso, uma montagem frente ao indomesticável da pulsão.
A retomada da discussão clínica do caso Schreber em Apresentação das Memórias de um Doente dos Nervos (1966) - na qual ressalta que a submissão de Schreber em relação a Deus é a submissão ao gozo de Deus (e que o próprio ser de Schreber respalda isso) – marca a progressiva relevância teórica do conceito de gozo, e o abalo da hegemonia do simbólico no interior do qual o gozo é definido como mortificado pela linguagem. O Mais-além do Édipo ganha, aqui, um novo sentido: o sentido preciso de um mais-além da metáfora paterna, de uma passagem do Nome-do-Pai ao múltiplo. É esse novo sentido torna possível entender a estruturação típica dos sintomas, das rupturas de laço social, da pregnância do gozo autista e do empuxo a debilidade mental, que habitam nossos dias (a>I).

quinta-feira, 12 de março de 2009

O QUE É PRECISO PARA VIVER UM GRANDE AMOR?

"O que é preciso para viver um grande amor?”

Cláudia Henschel de Lima (Psicanalista e professora universitária. Coordena o Núcleo de Pesquisa em Toxicomania e Alcoolismo do Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro e o Laboratório de Investigação em Psicopatologia Contemporânea).

Equipe de alunos que auxiliou na busca de dados: Adilson Pimentel Valentim, Carlos Emmanuel Rocha, Natália Rodrigues – alunos do 7 período do curso de Psicologia do Uni-IBMR)

No dia primeiro de março, o programa Fantástico exibiu uma matéria sobre desempenho sexual do brasileiro e a descoberta da pílula do amor. A matéria tinha como base duas pesquisas: a primeira, conduzida pela psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, que concluiu que 47% dos brasileiros fazem sexo sem vontade; e a segunda, comandada por Larry Young na Universidade de Emory (no estado americano da Geórgia), que observou o comportamento de roedores e concluiu que as fêmeas que recebem doses de ocitocina apresentam um comportamento apaixonado. Essa pesquisa norte-americana, fundamentada no modelo neurofisiológico, evidencia que a capacidade de estabelecer laços amorosos está correlacionada à localização dos neurônios receptores dos hormônios ocitocina e vasopressina. O que significa que a maior concentração desses receptores na área cerebral de recompensa – responsável pelo prazer e pelo vício – facilita o apaixonamento.

"É muito possível desenvolver drogas para acelerar o envolvimento com outras pessoas ou mesmo facilitar a procura por um amor" - assegura Larry Young. Após 27 de casamento um americano não se deixa apanhar pela dúvida: "É claro que eu tomaria uma pílula para aumentar a dose de amor que tenho por alguém".
"Um medicamento como esse poderia muito bem ser usado em terapia de casais" - prevê o cientista. "Ingerindo um pouco de ocitocina, você poderia focar mais no parceiro e se relacionar melhor com ele. Então, há sérias indicações de que a ocitocina nos deixa mais próximos e pode ter importância na criação de um novo relacionamento" - complementa.
A pergunta que introduz a pesquisa norte-americana também se aplica à pesquisa sobre desempenho sexual do brasileiro. Afinal, em ambas as pesquisas, sobre sexo e amor, prevalece o argumento da ausência de vontade e a hipótese bioquímica de sua recuperação.

Sendo assim, vale recolocar a questão: o que é preciso para viver um grande amor?; o que é preciso para reacender a chama de um amor que há muito se perdeu no passado da juventude, na rotina das contas a pagar, no clichê dos conflitos conjugais?

Para a abordagem biológica e comportamental, vale a esperança de que a técnica científica produza um remédio para todas as interrogações da alma, a fim de curar não só as dores cotidianas, que são imanentes a existência de cada um (envelhecer, adoecer, conviver com os outros), como também prever seu futuro aparecimento. Então, diante da pergunta difícil sobre reacender a chama de um amor que a própria existência apagou, nada mais esperançoso e conveniente do que a resposta científica e prudente de nossa época: “Eis a pílula do amor: para a mulher, a ocitocina; para o homem, a vasopressina!”

No entanto, a exclamação de um ufa! interrompe bruscamente a descrição entusiasmada da promessa biológica e nos coloca diante da outra face da moeda científica: a utopia técnica prevê a cura do mal-estar que é característico à condição humana de ser finito, de ter limite, de ratear, de não saber tudo a respeito de si e do próximo, de ocorrerem diferenças entre o homem e a mulher, que se apresenta em sua máxima intensidade na relação com os pares.

Isso fica evidente no conteúdo da justificativa dada por cada homem e mulher após responder ao levantamento sobre comportamento sexual: ter medo de parecer pouco viril diante da parceira, não decepcionar quem se ama. São exemplos do que se passa em cada ser humano diante do encontro sexual. E isso é diferente para o homem e para a mulher, de modo que a própria reciprocidade do amor e do desejo é função desta diferença.

O fundador da psicanálise Sigmund Freud chamou de Liebesbedingung, essa condição típica e única do amor: é o traço particular que causa a chama que se acende entre um homem e uma mulher. Só que essa condição é singular e pode ser absolutamente banal, como por exemplo, a textura alva da pele de uma mulher (conforme o relato de uma paciente de Freud) ou a imagem de quem um dia se foi no passado (imagem narcísica). Mas o interessante é, justamente, o fato de uma bobagem, uma coisa sem sentido, acender a chama do amor. E é interessante porque o terreno da besteira parece ainda resistir à medida e ao controle da ciência.

A previsão científica de cura do limite apagou a radicalidade da experiência subjetiva e com isso se fortaleceu uma experiência subjetiva da irresponsabilidade. No amor, a irresponsabilidade aparece no personagem do eu sozinho, comum no serial lover.

O psicanalista francês Jacques-Alain Miller, em recente entrevista ao Psychologies Magazine (outubro 2008, n° 278) caracteriza o serial lover como um sujeito que acredita que é completo sozinho e, no amor, dispensa reconhecer e conviver com limites, deixando, portanto, de reconhecer que precisa do parceiro. O serial lover anula o “jogo” delicioso do amor, convertendo-o na manipulação de sua (seu) parceira (o) - como se estivesse num teatro de marionetes. Jamais amará alguém, exatamente porque acredita que tudo é uma questão de química, carne, ou de um script pré-estabelecido, dispensando os riscos, as delícias de se viver uma experiência onde o limite e a finitude são as regras que tornam incontrolável o jogo do amor. O serial lover contemporâneo invalida a tese balzaquiana do amor (“toda paixão que não se acredita eterna é repugnante”). Neste sentido, ele é filho da técnica, um amante consumidor da pílula do amor, que deseja controlar tudo, inclusive o tempo que passa e deixa suas marcas no belo que se degrada e na virilidade que declina.

Diante do resultado da pesquisa brasileira - e, em particular do lamento televisivo dos casais que aceitaram falar de seus sentimentos em um programa de televisão, confessando que suas juras de amor são balelas ou mentiras - cabe pensar queo amor não é produto de uma regulação biológica, não é um teatro de marionetes, nem uma condenação ao pior. É um caminho tortuoso atravessado pelo mal entendido, onde a saída pode ser apenas se dar o direito de aprender, dia após dia, o vocabulário que constitui a vida particular de seu parceiro, tateando e buscando as chaves - desde sempre revogáveis - da parceria amorosa.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009



A Nave dos Loucos

O quadro, A Nave dos Loucos, exposto em Paris, geralmente atribuído ao período intermédio do Bosch, condena mais veemente e claramente frades e freiras. Ilustra duas freiras ou bequinas que se divertem com um grupo de camponeses num barco construído de forma estranha: seu mastro é construído por uma arvore com folhas, um ramo partido serve de leme, estando sentado no cordame à direita um louco.
Devido a esta figura, muitos autores viram alguma relação entre este quadro à Nau dos Loucos, de Sebastian Brant, cuja popularidade contemporânea é mostrada pela publicação de seis edições e numerosas traduções do poema, quando o autor ainda era vivo, Bosch deve ter conhecimento para a sua pintura, pois a nau era uma das metáforas mais populares da idade Média. O navio da igreja, por exemplo, com uma tripulação constituída por prelados e sacerdotes que levava as almas cristãs ao porto seguro do Céu, era uma imagem muito conhecida. Na peregrinação da vida humana, de Guillaume de Deguilleville. O navio da religião é equipado com um mastro que simboliza a cruz, representando cada castelo uma diferente ordem monástica.
Poderia pensar-se que Bosch conheceu a descrição do navio de Deguillevile e que sua pintura devia ser entendida como uma sátira ao mesmo. A bandeira cor-de-rosa flutuante possui a meia-lua turca em vez da cruz e na folhagem, no alto do mastro, esconde-se uma coruja. Três representantes da vida monástica negligenciam as suas obrigações religiosas para darem azo, às suas devassidões mundanas. O frade e uma das freiras cantam em voz alta, a outra freira acompanha a canção com um alaúde: parecem os pares amorosos representados em quadro medievais mais evidentes, tocam e cantam em conjunto.
A alusão ao pecado da Luxúria é apoiada por outros símbolos que remetem para os tradicionais jardins de amor. O prato com cerejas e o jarro metálico de vinho, pendurado de fora da borda, são requisitos que também aparecem na representação de Bosch do pecado da Luxúria no tempo de mesa de Prado. Sem duvida, existe também uma representação da Gula não só na imagem do camponês que corta um ganso assado atado ao mastro. Este pecado foi também cometido pelo homem que está nitidamente indisposto e pelo homem com a enorme colher. Ao lado do barco aparecem dois nadadores nus, um dos quais levantado a sua malga de vinho vazia, implora o seu enchimento. A arvore que substitui o mastro correspondente, na opinião de alguns peritos, talvez à arvore de maio das festas da primavera nas aldeias, onde o povo e os clérigos se juntavam para se divertirem e se dedicarem a devassidões.
Finalmente, a figura do louco sentado no cordame, a beber com sofreguidão, remete implicitamente para a imoralidade que tinha lugar na nave. Durante séculos, os bobos da corte gozaram de liberdade de poder censurar, sorrindo ironicamente, os costumes da sociedade, e é nesta qualidade que aparecem como críticos dos costumes das litografias e pinturas de meados do século XV. Envergam, normalmente, barretes de bobo. Adornados com orelhas de burro, trazendo na mão uma vara encimada por uma pequena replica das suas próprias feições grotescas. Os loucos encontram-se frequentemente entre bebedores e pares amorosos. Saltitando como uma representação da Luxúria no quadro dos pecados mortais do Prado, onde revela a estupidez de toda essa concupiscência.

ADILSON VALENTIM

Fonte: BOSING, Walter. A Obra de Pintura: Bosch.